400 Contra 1 - A História do Crime Organizado:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Caco Souza
Elenco: Daniel de Oliveira , Daniela Escobar e Fabrício Boliveira.
Duração: 95 min.
Estréia: 06/08/2010
Ano: 2010


Infelizmente


Autor: Cid Nader

400 Contra 1 – Uma História do Crime Organizado, padece de “somente” um grande problema em sua confecção: não dá para entendê-lo. O diretor Caco Souza, ao resolver que iria relatar via cinema a história do surgimento do Comando Vermelho (organização criminosa das mais potentes e organizadas lá do Rio de Janeiro), deve ter entendido que a possibilidade lhe acenava com a tentação de misturar estilos e modismos, como maneira de fazer o filme ser “comprado” pelas mais variadas tribos cinéfilas. Mais do que fazer dessa possibilidade uma intervenção cinematográfica a ficar marcada de alguma maneira relevante na nossa história nessa arte (fato que me pareceu evidente pelo legítimo samba do crioulo doido que resultou o constante vai-e-vem da trama – tanto pelo aspecto histórico das relações narradas, quanto pelo escopo técnico “imaginado” para criar a dinâmica do andamento), o que ele conseguiu mesmo foi realizar um dos trabalhos mais inseguros a que tive chance de ver nos últimos tempos.

O pior é que o filme tinha um belo material histórico a ser dissecado: contava com a intenção de deixar no cinema a sequencia reveladora que fez com que a mistura dos presos políticos mandados lá para o presídio da Ilha Grande, nos meandros de nosso regime militar, com os presos comuns que já “habitavam o local secularmente”, resultasse, bem à frente, na poderosa organização criminosa. Contava com essa intenção: mas entre contar e conseguir vai um mundo de detalhes e pormenores a serem atentados, e, no cinema, isso importa demais, pois o que se verá no resultado final projetado na telona já é, normalmente, material muito mais mastigado e definitivo do que livros e jornais nos proporcionam. O cinema é arte que tem de entregar – por caminhos dos mais variados, já que se exige que ele seja inteligente, também - material mais pronto, pois trabalha com a imagem como sua matéria-prima preferencial.

O resultado - após um amontoado de flash-backs indecisos, de avanços temporais se interpondo sem nenhum tipo de chance para que se calculasse em que medida espacial o filme estaria se intrometendo em diversos momentos, o que criou desconexão não pensada originalmente na continuidade; após um dedicado esforço à reconstituição de diversas épocas, ou da até razoável atenção com a chegada dos primeiros presos políticos e seus primeiros contatos com os presos comuns – é que o espectador se cansará por não conseguir manter devidamente a atenção ao que acontece na sua frente (isso impede a aceitação do trabalho como arte, e não cumpre a função de revelação e ordenação dos dados históricos).

O que poderia ter rendido talvez seja o que mais chateie: pois sua trilha sonora (“organizada” com muita capacidade por Max de Castro) é bem boa; momentos de sua fotografia também revelam que havia boas intenções com a reconstituição física das épocas (que passam a se embaralhar por equívocos, provavelmente, de edição); e pelo o elenco que, fazendo sua parte, até que mandou bem. Não sei se Caco pensou no trabalho como algo a disputar um suposto público surgido após o advento “Cidade de Deus” (que, pelo bem ou pelo mal, conseguiu ser mais, digamos, didático em sua desconjunção e velocidade), ou se teve outros modelos de modismos na cabeça, mas sei que esse seu trabalho não poderia ser recomendado a públicos com as mais variadas intenções. Infelizmente.

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