O Estranho em Mim:


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Original: Das Fremde in Mir
País: Alemanha
Direção: Emily Atef
Elenco: Susanne Wolff, Johann von Buelow, Maren Kroymann e Hans Diehl.
Duração: 99 min.
Estréia: 06/08/2010
Ano: 2008


Um ainda indeciso cinema alemão.


Autor: Cid Nader

Emily Atef está em seu segunda longa-metragem como diretora – portanto, tratamos aqui de uma diretora novata na área. O cinema alemão tem carecido de bons trabalhos surgindo com maior regularidade – como já foi o caso nessa cinematografia em diversos períodos de sua história cinematográfica, inclusive com a “exportação” de grandes para o cinemão americano nos períodos de força de estabelecimento da grande indústria de entretenimento. O último período a ser considerado como profícuo em trabalhos e realizadores com qualidade cessou lá pelos anos 1980, quando o pais teutônico passou a exportar um amontoado de filmes sem, no mínimo, nenhum modelo de organicidade (para fazer crer que eram trabalhos egressos de uma mesma região – minimamente se exigindo).

O Estranho em Mim, ao menos surgia com uma possibilidade inovadora, que era a de colocar na telona um assunto tão importante no mundo atual, mas de caminhos para ser discutido somente possibilitados por alguns noticiosos e programas femininos da televisão: o filme – na premissa, ao menos – sugeria intrometer em sua trama, como mote condutor principal, a depressão pós-parto. Conta a história de Rebecca, que aos 32 anos tem um filho da relação com seu namorado, Julian.

Bem, início disparado, e a espera do que essa razoavelmente jovem diretora poderia nos entregar: na ânsia de ver tal assunto no cinema, sob ótica feminina, e oriundo de uma cinematografia que já é mais aquela coisa. Nos primeiros momentos, nota-se a utilização viciada de um artifício tão manjado quanto dispensável que é utilização da câmera como um instrumento registrador de caráter urgente (falsamente urgente): imagens mal captadas, com angulações “incompletas”, aquele velho e conhecido tremor, e outras coisinhas mais (algo a ver com a falta de cuidado com a luz e o resultado obtido pelas emendas). Com o avançar da história, esse quesito “caráter urgência” toma formas mais definitivas de referência ao cinema realizado pelos belgas irmãos Dardenne (se nota com mais assiduidade que as lentes tentam grudar na “carne” dos protagonistas para tentar arrancar as sensações de angústia “exaladas” por seus poros: bastando citar que, lá, no caso dos irmãos, tal forma de filmar obtinha sensações complexas dos “perseguidos” pelas lentes, e aqui, tal situação, mesclada com as primeiras sensações de outras referências, no máximo faz perceber que ao menos houve uma tentativa estética fora do padrão de marasmo do cinema de lá – o que já emprestou um certo alento ao trabalho, se bem que com jeito de cópiazinha, mais do que referência louvável).

Emily tenta se sustentar tecnicamente nesses trejeitos optados de filmar, mas, ao mesmo tempo em que o filme avança e as caracterizações passam do inicial apreciável (no começo, algumas atitudes dos personagens, principalmente de Rebecca, conseguem impressionar e gerar expectativas) a repetições de “modos comuns” executados por atores, a estrutura conjunta dessas e de outras questões se estabelecem em patamares de pouca coesão e importância, como sustentação. Algumas atmosferas até se sustentam e emprestam bons resultados: o momento em que essa mesma Rebecca ganha a rua à noite, fugida, se embrenhando no meio do mato, é bastante bem ajustado, do início ao fim; o contato com a mãe, vinda do Canadá em seu socorro, desde que ela a nota pelo andar ao abraço na cama, também é bom; a presença “fugaz” de um tio que a acomodará por um tempo tem aura germânica estranha dos bons tempos de Win Wenders, e algo (menos tenso, sim, mas algo) de personagem de Fassbinder; ou o clima passado do modo de se comportar da civilização alemã moderna é revelador de alguém bastante atento aos seus (sem exageros e indelicadezas comuns a outras cinematografias).

Tanto quanto o filme é indeciso pelas opções estéticas e não se sustenta quando as atuações são mais exigidas, derrapa também no assunto mote, pois, aos poucos, desleixa na observação inicialmente rígida da situação (além de criar momentos que parecem institucionais, em clínicas, piscinas, ou consultórios), para embicar a história na direção da relação entre o casal, e os do entorno interferindo nas possibilidades deles reatados. É uma opção sem o total desleixo com a criança e o assunto que seu surgimento suscita, verdade, mas que amaina muito a angústia que o tema impregna na tela e que possibilitaria um filme mais densamente regular: mais ao desejo de rever um cinema alemão ressurgindo – se bem que isso não pode ser função dela ou de poucos – forte.

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