A Origem:


Fonte: [+] [-]
Original: Inception
País: Reino UnidoEUA
Direção: Cristopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page e Cillian Murphy.
Duração: 148 min.
Estréia: 06/08/2010
Ano: 2010


A Origem – Estonteante e possante. Mas restam dúvidas cruciais.


Autor: Cid Nader

Ver A Origem numa sala IMAX é um programa decididamente imperdível - tanto quanto é desvirtuador de uma análise mais atenta do trabalho via aspectos fundamentais e decisivos. Mesmo sendo um trabalho realizado em 2D, o fato de pertencer à categoria de filmes especias se visto na sala do telão inacreditável e do melhor som a que podemos ter acesso - ao menos é isso que ocorre aqui em São Paulo - acaba por imprimir nos sentidos a sensação deliciosa de se ter visto algo tremendamente bom nos aspectos técnicos desejáveis nesses casos (nunca presenciei tamanha boa exploração de sons e sons ruidosamente bem entonados, como nunca havia passado por tamanhas sensações visuais, de algo emitido no "prosaico e singelo 2D". O fato é que toda a engenhosidade do roteiro – sim, dá para se perceber muito apuramento, mesmo sob a hipnose estética/técnica causada pelo trabalho do diretor Christopher Nollan – acaba ficando um tanto soterrada diante da qualidade barulhenta constatada, que capturaria o espectador para qualquer filme. Portanto, se for o caso de não se pensar demais no resultado e a ideias for a de ir uma sessão do tipo “melhor parque de diversões”, já vale a pedida.

Mas, tentando exercer minha função com um pouco mais de honestidade e exigindo de mim mesmo algo mais sobre a obra em si, sobre seu resultado como cinema e linguagem – e já sabendo de antemão o tremendo sucesso que o filme vem fazendo nos EUA desde seu lançamento (com alguns cometários que o elevam “facilmente” à categoria de melhor filme do ano, ou da década...) -, o primeiro fator a me chamar a atenção quando alertado sobre a existência do trabalho em fase de confecção foi o nome do diretor. Christopher Nolan tem para mim duas coisas que impregnaram e me fazem preconceituá-lo: seu primeiro longa, “Amnésia” (2000) foi um tremendo embuste, com sacadinhas e modernidades suspeitíssimas que se fizeram razão para admiração de inveterados fãs, mas que jamais desceram pela minha goela; e sua evidente busca dos meandros atormentados da mente humana como um vetor comum em sua obra sequente, com perceptível atenção aos detalhes que remexem com nossos cérebros, que ocasionam manifestações somente possíveis de serem externadas e compreendidas por símbolos, por nós mesmos (vai-se saber os dramas dos inconscientes de outras raças), que renderam o bem melhorzinho “Insônia” (2002) ou o depressivo (que poderia ser bem bom, mas pesado a mais na conta) “Batman – O Cavaleiro das Trevas”.

Bem, Nolan parece ter abdicado aqui dos truquezinhos chinfrins e disfarçados de coisa séria que o fizeram virar fenômeno lá no seu primeiro longa e adotou ostensiva, e agressivamente, a possibilidade dos truques técnicos como modo de continuar “antenado” às tendências de seu tempo: por tal opção, esse outro seu trabalho de tormentos mentais, esse novo A Origem, já ganha pontos positivos. Deixando com que a fluência narrativa seguisse caminhos mais comuns (dentro da possibilidade que é a de se pensar no mergulho em sonhos como modo comum de se compreender qualquer coisa que seja por parâmetros de caminhar normal, linear), muito do que o ingresso nesse mundo dos sonhos exigiria de “alinearidade” ou confusão ficou por conta de mecanismos estéticos: a utilização de câmeras lentas, lentes coladas nas faces, o desmembramento de cenários e reajuntamento ao modo onírico de plantão, a maneira de embrenhar um sonho no outro (ruidos para diferenciar, luzes opostas, mentes se alternando, expressões captadas dos rostos em repouso...), muito do tempo real ou do utilizado pelo inconsciente das cenas correndo aos nossos olhares. Ele obteve sua grande parcela de estranhamento buscado por aspectos de manipulação mecânica, e isso foi bom.

Por outro lado, falar de mentes humanas pelo subterfúgio do ingresso no mundo dos sonhos requereria um pouco mais de carinho psicanalítico (daí ter citado acima que conseguimos tais intuitos por símbolos e estudos seculares). O sonho talvez seja o fato mais inquietante que o ser humano sempre teve como coisa a ser resolvida, compreendida: pela razão de podermos nos entender por linguagens criadas, tal situação, absolutamente orgânica, carregou consigo medos e expectativas (ao pós morte, como um dos grandes exemplos), pelos tempos e pelos espaços físicos, fazendo com que a humanidade até se diferenciasse nos modelos de compreensão sobre o que é a evolução: do temor surgiu a ciência que o estudou jogando parte da humanidade no iluminismo, enquanto outros setores mantiveram-no por mais tempo cativo nos medos expressados pela atemorização religiosa. O sonho com certeza é um dos grandes responsáveis pelas indignações ou inconformismo humano (por várias observações que possam ser feitas), sendo colocado sempre num patamar de importância supremo. Daí, quando se nota que muito do tormento mental observado e perseguido pelo diretor foi transformado em modelo de filme de ação – que tem como mote questões de espionagem -, mesmo após bons momentos de discussão sobre o sub-consciente e de “como atingi-lo” mecanicamente, mesmo com toda a boa parafernália técnica executada, resta uma sensação de decepção. Christopher Nolan estaria mesmo interessado numa de imersão nas nossas culpas ou medos, ou é simplesmente um aproveitador de questão tão fortemente marcada na espécie?

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