Um Novo Caminho:


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Original: Le Dernier pour La route
País: França
Direção: Philippe Godeau
Elenco: François Cluzet, Mélanie Thierry, Michel Vuillermoz, Anne Consigny.
Duração: 106 min.
Estréia: 30/07/2010
Ano: 2009


Mais centrado no tema do que na forma.


Autor: Cesar Zamberlan

Produtor com uma extensa lista de filmes no currículo, entre eles "Oitavo Dia", de Jaco Von Dormel, "Baise-moi," de Virginie Despentes, além do último Pialat, "Le Garçu", de 1995, Um Novo Caminho é o primeiro filme de Philippe Godeau como diretor.

Com uma decupagem clássica e sem invenções formais, a proposta de Godeau é mais centrada no tema do que no modo de narrá-lo. Ao colocar na tela a saga de um jornalista que busca abandonar o vício do álcool, Godeau coloca o espectador na posição de Herve, busca a empatia com o personagem e o estranhamento com a situação em que ele se coloca: a internação em uma clínica para iniciar o processo de desintoxicação e se livrar do vício. Colocar o espectador na tela, vivendo e sofrendo com os personagens é a intenção do filme e isso é feito de maneira ética, sem apelos emocionais extremos e sem nenhum tipo de chantagem sentimental que seja ofensiva à inteligência do público, ainda que o caráter, às vezes, essencialmente didático do filme deixe de lado questões que poderiam soar interessantes.

Diferente do clássico "Farrapo Humano", do gênio Billy Wilder, os grandes porres do personagem são mostrados em leves flahsbacks e a crise de abstinência, retratadas com apuro por Wilder, não chegam a atormentar Herve. O que move personagem e filme é a aceitação do tratamento, a descoberta da doença, o aceitar-se doente e, sobretudo, compreender a doença no próximo para entender a si mesmo. E se o filme tem bons momentos, como a amizade de Herve e Pierre e a relação entre Herve e a jovem Magali, explora pouco a obsessão do jornalista com a sua doença maior, que o faz peregrinar por vários cantos do mundo, numa clara continuidade e ajuste de c ontas com o passado, seus pais missionários e a morte da irmã, episódio do qual se sente culpado.

Metaforicamente, a injustiça que combate e que o leva a embriaguês é o fracasso do homem, herdeiro dos ideais do século das luzes, que ainda acredita numa sociedade igualitária e justa, dentro dos seus critérios burgueses óbvio, e não aceita, na sociedade fraturada e dilacerada do pós-modernismo, a fome, a guerra, a barbárie e as trevas, esteja ela na sociedade ou no indivíduo.

Herve, em dado momento, vê no desajuste de Magali a chance de curá-la e de voltar a atuar na doença que é dele também, no vício que os une, é alertado por Pierre, mas só quando tem seu primeiro dia livre e vai ao encontro dela, já fora da clínica e entregue ao mundo, que parece sentir que é preciso abandonar esse mundo ante a obsessão ingênua de arrumá-lo. A cena final do filme, com ele num barco, indo para um lugar indefinido, parece voltar a isso.

Aceitar o fracasso desse ideal tão francês parece ainda difícil demais para muitos filmes franceses. Godeau fica, de forma mais pungente, na constatação da doença, no exame da embriaguês e na necessidade de livrar-se dela para continuar sobrevivendo, e, embora aponte o que leva a embriaguês, parece não disposto a enfrentar a causa.

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