Uma Noite em 67:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Ricardo Calil, Renato Terra
Elenco: Documentário.
Duração: 92 min.
Estréia: 30/07/2010
Ano: 2010


Das antigas, se comunicando facilmente com o público de hoje.


Autor: Cid Nader

Uma Noite em 67 faz parte inconteste do imaginário brasileiro quanto à potência e qualidade de seu pendor musical. O documentário resgata com sobras momentos de um dos anos mais emblemáticos quanto a revelação - e consolidação - de nossa eternamente renovável safra musical, e dentro de um campo farto em sementes e semeadura que era os das terras férteis dos Festivais de Música Brasileira, engendrados pelos Machado de Carvalho em sua mitológica TV Record de então. Quando digo que "resgata com folga" é justamente pelo farto material de arquivo obtido por Ricardo Calil (crítico de cinema) e por Renato Terra, de onde não se imaginava sobrado quase nada, principalmente pela repetição cansativa das mesmas imagens e trechos quando alguém ou alguma matéria refere ao fenômeno que era o evento.

Os diretores apostaram obviamente na qualidade do que obtiveram como documentos, aliando a essa possibilidade "comum" e direta de montagem de um trabalho que já nascia rico por si só (os documentos imagéticos e sonoros daquela noite de decisão), uma outra ferramenta de fácil manipulação e vasta compreensão, que foi a das entrevistas com elementos de então, nos dias de hoje: conceberam um trabalho que percebeu a facilidade de se apresentar sem nenhuma firula a mais ou "encrenca" a ser sacada, ainda aliado ao teor jornalístico que se pode obter quando alguém do ramo se propõe ao ingressar no mundo do cinema. Daria pra dizer que o filme, ao final, não estabeleceu nenhum patamar novidadeiro: foi careta, na forma, intencionalmente. Tanto quanto dá para dizer, também, que tal "caretice", ao invés de posicionar o trabalho como algo cansativo e de pouca atração (é só ver as reação pra lá de positiva e receptiva dos públicos dos festivais e mostras por onde passa), compôs adequadamente um quinhão informativo de histórias que já seriam suficientemente sedutoras e revolucionárias por si só, e que preencheram devidamente os outros quinhões: coisa de direito.

O filme foi à final do Festival de Música da Record de 1967, resgatando uma porção de imagens e sons que talvez se imaginasse perdidas. Constata-se a genialidade de garotos em ascensão - Chico Buarque, Gilberto Gil, Os Mutantes, Caetano Veloso, Edu Lobo... -, tanto quanto constata-se a simplicidade deles então (sempre próximos das câmeras que gravavam tudo e por vários ângulos, com a certeza de que se tornariam documentos históricos), meio camuflada entre a ingenuidade de suas caras e do querer estar à vista, e as letras pra lá de elaboradas de suas músicas: incrível a qualidade literária e sonora de todas as cinco melhores classificadas (sem falar na interessantíssima que era "Beto Bom de Bola", de Sérgio Ricardo, que tanto elaborou sequencia melódica riquíssima e inovadora – com ao menos três tempos diversos de andamento dentro de seu espaço - quanto perdeu a cabeça ante as vais incessantes, a ponto de quebrar o violão, que não era seu , jogando-o sobre seus ofensores).

Como o assunto já falava por si só ("bastava aos diretores ir lá e amontoarem tudo de modo razoavelmente encadeado para um resultado bom"), eles imaginaram que seria bastante prudente mostrar serviço indo atrás de muitas das figuras antigas, em tempos atuais. Ao contrário da brincadeira que faço quando falo em trabalho fácil à mão deles, constata-se por alguns dos depoimentos recentes, e expressões ante revelações não sabidas, obtidos com cumplicidade assentida, pelos inquiridores, que o ajuntamento de ambos os canais de fluidez das narrativas perfizeram harmonia que enriqueceu um lado e outro - e esse é um dos trabalhos que se deve exigir de bons documentaristas. Uma Noite em 67, ao final, se oferece como material que evoca admiração e emoção; que provoca empatia; que soube ser disfarçadamente simples na tentativa de permitir que a riqueza da época tivesse por onde fluir.

PS: após ter revisto algumas outras vezes e repetido esse mesmo texto nas ocasiões necessárias, creio justo uma ou duas novas considerações após tê-lo revisto novamente, dessa vez, no Festival de Paulínia. O resultado desse trabalho de Calil e Terra fala muito fortemente com o público que o tem visto: as reações são sempre muito positivas e vindas das mais diversas camadas de idade, o que revela o quanto aquele momento artístico tem de importância rememorativa para os de então, e o quanto provoca curiosidade nos mais jovens (observei bastante a reação da plateia e é emocionante o que ocorre). As entrevistas recentes – fato que notei mais precisamente dessa vez – que fazem parte de um bom tamanho do documentário, são bastante ricas, bastante lúcidas, e, principalmente, reveladoras e esclarecedoras de fatos que não se insinuam ao nosso conhecimento por documentos do momento: os questionamentos calmos e “educados”, obtiveram a contrapartida de respostas cunhadas por ineditismo e entrega dos questionados (bastante bom, principalmente por se tratar de trabalho realizado por dois jornalistas, afinal). O filme cresce, com as revisões, no aspecto da linguagem buscando (e alcançando) resultados.

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