Vincere:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Itália/França
Direção: Marco Bellochio
Elenco: Giovana Mezzogiorno, Fillipo, Timi, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi.
Duração: 128 min.
Estréia: 23/07/2010
Ano: 2009


Um dos melhores filmes do ano, no mínimo.


Autor: Cesar Zamberlan

Num determinado momento de Vincere, Ida Dalser é submetida a um exame que visava atestar a sua sanidade e o psiquiatra lhe pergunta se é dia ou noite. Ela serenamente responde que o dia compreende a noite. A resposta não apenas remete ao filme anterior de Bellocchio, “Bom Dia, Noite”, como parece sintetizar os temas trabalhados pelo cineasta italiano recentemente: narrar alguns episódios marcantes na história italiana sob o foco de personagens periféricos que acabaram à sombra da história ainda que tenham vivido e sido determinantes nos episódios narrados.

Se em “Bom dia, Noite”, o episódio era o seqüestro de Aldo Moro e o foco estava numa das militantes que teve participação menor no evento, o episódio de Vincere é a ascensão de Mussolini e sua relação amorosa com Ida Dalser, que deu dinheiro para que ele fundasse o jornal Popolo d’Itália, teve um filho seu, mas foi depois escondida pelo aparato facista e silenciada durante anos em hospitais psiquiátricos – algo em termos parecido ao que ocorreu com Camile Claudell, amante de Rodin.

Nos dois casos, a noite cobre as personagens de Bellocchio que perdem a ingenuidade quando se percebem peças de uma engrenagem maior movida pela obstinação cega daqueles que não ousam sacrificar quem quer que seja para fazer história. Bellocchio parece quer fazer justiça a esses coadjuvantes esquecidos e, nos dois filmes, aponta a câmera para eles, nos dando outro ângulo, um registro da história não necessariamente escrito pelos “fortes”, mas por aqueles que, humanos como nós, sucumbiram à sedução daqueles quem desejam ao poder a qualquer custo. Em Vincere, o Mussolini, amante de Ida, só existe e é representado quando está no mesmo patamar que ela; quando torna-se a figura mít ica que todos conhecem, o cineasta usa imagens de arquivo numa clara cisão entre a história e a História.

Essa representação da história com h minúsculo, da história que não foi iluminada pelos holofotes do tempo, história das sombras, ganha sentido ainda maior nesse filme com a opção do cineasta em fazer o registro do filme numa fotografia quase em preto e banco, toda trabalhada em tons de cinza e remetendo aos filmes e telejornais da época, com a inserção de letreiros para situar o trabalho historicamente.

Outro acerto de Bellocchio é na forma como constrói narrativamente a história, fugindo de uma estrutura narrativa clássica, linear, baseada em um nexo causal estruturado numa lógica de causa e conseqüência para trabalhar com cenas, fragmentos, momentos não didaticamente datados, mas representativos da história maior que retrata.

Leia também: