O Grão:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Petrus Cariry
Elenco: Leuda Bandeira, Veronica Cavalcanti e Nanego Lira.
Duração: 88 min.
Estréia: 23/07/2010
Ano: 2007


Uma pérola.


Autor: Cid Nader

Petrus Cariry talvez seja o diretor mais representativo da cena renovadora e interessante que surgiu no Ceará nos últimos anos. Trabalhos curtas têm aportado por São Paulo quase sempre com qualidade indiscutível e diferenciada. Diferenciada por conta de um certo isolamento da capital, Fortaleza - onde obviamente acontecem as deflagrações culturais - em relação às outras do nordeste. Recife foi a bola da vez já há algum tempo; mas a capital pernambucana está muito integrada já ao sistema, ao mundo, e o ar de novidade - apesar de muita cosia boa ainda estar saindo de lá - já não é tão fresco assim. Por outro lado, Fortaleza surgiu com uma mescla bastante interessante de conhecimento do que se passa no mundo das artes do planeta, mas com uma evidente tentativa de integração desse conhecimento mais amplo às tradições seculares da região. Os curtas de lá tem vindo para apresentar suas tradições, mas a carga de mistura a outras tendências vem fortemente atrelada, fazendo com que o resultado seja se pensar na região como mais um dos futuros difusores do país.

Petrus tem algo a mais para diferenciá-lo: é filho do cineasta mais conhecido da região, Rosenberg, e traz essa "carga" como um diferenciador - para o bem e para o mal. Já realizou curtas exemplares no quesito imagens, edição, e estreou no mundo dos longas com os "dois pés direitos". O Grão (surgido nos idos de 2007 e somente agora sendo lançado no circuito comercial de São Paulo, infelizmente num cinema que não prima pela boa projeção de seus filmes) é filme que narra o fim, o ocaso, num interior cearense que remete à paralisia. Parece muito ser fabular. Existe uma forte interação entre avó e um garoto que a ouve como narradora de história. A ação se passa num interior mítico e tradicional, mas a intenção de Petrus parece muito mais atrelada ao que se preconiza como intenção dos trabalhos surgidos de outros diretores locais: desmistificar a região como algo pitoresco ou belo e simples na essência - a turma de lá não nega e até se apodera (faz bandeira) dessas tradições, porém, tenta "readequá-la" ao seu estilo culto cinematográfico.

A estética é tão bela - lógica facilmente perceptível quando se pensa na obra do diretor e de seu fotógrafo, Ivo Lopes Araújo - quanto árida, e isso causa um distanciamento de uma possibilidade romantizada que poderia ser importante e necessária... Petrus é duro com seus personagens, trata-os com rispidez, mas não impede o aconchego do olhar do espectador. Talvez faça o distanciamento através do texto e das ações, mas aproxima por conta de revelá-los - com toda a sua humanidade (e aí, pense-se em humanidade no sentido mais amplo do termo - falha, emocionante, errante e "buscadora") - de maneira muito próxima. Mesmo assim, não se percebe uma busca da empatia por parte do diretor, que também não empresta a ninguém (nem ao menino, observador e centro por onde passa tudo) o poder da observação total. Quem faz isso é a câmera - o próprio Petrus -, numa tentativa determinada de dominação total do ambiente, da narração, do nosso olhar.

O que surge como resultado, ao final, é um trabalho extremamente concreto nas opções estéticas adotadas. Belíssimo nas figuras criadas - o cachorro, a avó...- e em cenas plasticamente criadas para elas. Forte ao evidenciar de maneira exemplar o isolamento da família, faz disso razão para tomadas de câmera que narram situações, dispensando a oratória. Talvez a música interfira um pouco a mais do que o necessário – mesmo sendo bela, no entanto. E termina, assim, num corte abrupto (talvez um modismo, naquele momento), mas que cabe no muito justamente no filme como maneira de evitar firulas desnecessárias.

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