BENS CONFISCADOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carlos Reichenbach
Elenco: Betty Faria, Werner Schünemann, Antônio Grassi, Eduardo Dusek, Márcia de Oliveira e Marina Person.
Duração: 108
Estréia: 09/12/2005
Ano: 2005


"Bens Confiscados" - os gurus nem sempre acertam


Autor: Cid Nader

Existem pessoas nesse nosso mundão que ganham a confiança, o respeito, chegando até à idolatria, por parte do resto, dos simples mortais. Tal deferência é conquistada por motivos variados, que podem transitar pelos campos da religião, do esporte, do mundo das artes, da atração física e por vezes até do “it”, com seu magnetismo inexplicável - ao menos sob a ótica da ciência exata. Um pouco da necessidade animal por uma liderança pode ser imaginada como uma das razões para o surgimento, ou criação, de tais seres diferenciados e, nesse caso, a imposição física é fator importante.

Cá por nossas bandas, mais especificamente pelos lados do cinema, existe Carlos Reichenbach, figura que ao modo de um guru mantém um séqüito de adoradores, dispostos ao suicídio, se necessário for, para defender suas idéias e obras: "inquestionáveis, intocáveis e inatacáveis"; senão para a totalidade, ao menos para a grande maioria de seus fiéis seguidores.

Quem conhece Carlão pessoalmente, tende a virar fã e amigo. Uma figura grande e abrutalhada, com voz de trovão e alma de criança. Que entende do ofício cinema como poucos no Brasil, e de extensa bagagem cultural ligada ao assunto. Porém - e eis que sempre surge um -, acima da figura carismática, existe um trabalhador, que nem sempre acerta a mão e nem sempre nos oferece um trabalho acima de qualquer dúvida.

Depois de assistir a "Bens Confiscados" e incomodado com o resultado final, passei a questionar amigos quanto às suas opiniões a respeito dessa nova obra. As respostas vindas dos idólatras foram todas positivas, elevando o filme às alturas, de maneira incontestável, acentuando o primor da fotografia - concordo - e elogiando a "particular" e "primorosa" direção de atores - discordo.

Tenho amigos que, por outro lado, questionam invariavelmente o "efeito Carlão" sobre o grupo apaixonado por suas obras. Quase nunca gostam de qualquer trabalho surgido das mãos e da cabeça do cineasta gaúcho e questionam, principalmente, a fotografia do filme - discordo - e o método utilizado na direção dos atores - concordo; parcialmente.

Reichenbach segurou a barra nos momentos de grande dificuldade pelos quais passou o cinema nacional nos anos de 1970 e início do 80, com um conceito criativo, pobre nos recursos financeiros, cheio de jogo de cintura para driblar a "oficalidade" nacional e loucas idéias na cabeça. Ganhou respeito e criou um estilo que virou marca registrada, pelos longos anos que se seguiram.

Quando fez "Dois Córregos", deu uma pequena guinada - aparentemente - em sua carreira, jogando sob o tapete um pouco de sua estética "suja" - no bom sentido - e ingressando num cinema que requisitava mais "capricho", mais "beleza" no momento da apresentação final, na telona. É lógico que toda a sua "índole" e seus preceitos continuaram intactos, ali para quem quisesse ver. Porém estavam debaixo de uma camada de maquiagem, e isso seria razão suficiente para impor algumas exigências, na eventualidade de se seguir adotando essa "nova linha"

Aí, então, falha o romântico Carlão em "Bens Confiscados". Nos deixa atordoados com um plano inicial cheio de vigor, rigor e imaginação, e faz com que pensemos, agitados em nossas poltronas: "oba, aí vem coisa boa". E não vem.

Falha muito na direção dos atores, incorrendo no erro crasso da falta de espontaneidade, no caricatural, no "over" - mesmo que alguns defendam ser esta uma opção do diretor; não é. Fica difícil engolir discussão na qual os personagens não atropelem uns as falas dos outros, isto é, onde alguém - perturbado e nervoso - dê um tempinho para retrucar o questionamento do outro que, também, pacientemente espera o segundo terminar de esbaforir para, só então, replicar novamente - isso "cabia" em época de cinema mais "sujo". As cenas propositadamente estereotipadas - do jornalista, do político ... - ok, são boazinhas. Mas só.

Capricha na fotografia, e isso - incrivelmente - acaba pesando contra quando acontece a comparação com o lado interpretação - acentua a desigualdade.

P.S.: as pedagogas não vão gostar nadinha da maneira como são retratadas no filme, em momentos que chegam a causar constrangimento, pela opção adotada no modo de inseri-las em cena.
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