O Golpista do Ano:


Fonte: [+] [-]
Original: I Love You Philippe Morris
País: EUA/França
Direção: Glenn Ficarra, John Requa
Elenco: Jim Carrey, Rodrigo Santoro e Ewan McGregor.
Duração: 97 min.
Estréia: 04/06/2010
Ano: 2009


Assustando produtores e distribuidores ianques.


Autor: Cid Nader

O fato de saber que o O Golpista do Ano estreará nos EUA (um dos paises de origem da obra e do golpista) somente bem depois dessa estreia aqui no Brasil, por exemplo, já seria motivo suficiente para pensar nele como algo que mereça um tipo de discussão: aquela que remete a pensar no moralismo dos produtores ianques (principalmente quando é o moralismo relativo à ostentação das imagens de sexo e apelo de corpos, ainda mais quando se “comete” beijos e carícias homossexuais na tela) interferindo gravemente e nem querendo imaginar o quanto o filme poderia render de volta a seus bolsos (o que pressupõe conhecimento, por parte deles, de causa quanto a fatores que podem afastar fortemente das salas seu público preferencial, familiar, instituição). Parece que oficialmente nunca houve pronunciamentos escancaradamente oficiais sobre os atos (pra nós daqui da linha de baixo, leves, quase pueris) realizados em poucas sequências no filme serem responsáveis para tal indefinição: tanto quanto pareceria antinatural macacos correrem de medo de bananas.

Fico pensando, cá com meus botões, sobre ainda o fato do atraso ter a ver com os precavidos produtores pensando no futuro de um dos maiores ídolos cinematográficos do país (fonte de renda quase sempre garantida, principalmente no patamar “dinheirinho saindo do bolso de famílias a fim de se divertirem com algum filme bacana”), que é careteiro e também bom ator, Jim Carrey: protagonista principal do filme, golpista da pá virada (que no início surge pai de família e trabalhador convicto), que se assume gay num dado momento, mas gay mesmo, sem mais disfarces que os primeiros anos de sua vida lhe impingiram como carga.

Há toda uma má avaliação das potencialidades do filme, de onde quer chegar, de onde parte, para onde vai (tudo isso sob aspectos mercadológicos, não como a obra imaginada pelos diretores), a ponto daquele maldito exercício de classificação obrigatória sob algum tipo de alcunha de gênero tê-lo colocado na categoria “comédia”. Temos Jim Carrey, temos caretas, temos alguns malabarismos e algumas gafes físicas, também, mas não dá pra classificar simplesmente como comédia um filme que abusa da “enganação” na edição (enganação no sentido de truques em benefício de surpresas narrativas), que vai mais a fundo do que o comum norte-americano nas demonstrações de carinhos (principalmente, como já citei, entre casais gays masculinos), que trata de um assunto baseado na vida real (quase inacreditavelmente contemporâneo), e que abusa de alguns elos de encadeamento baseados em manifestação de variados modelos de violência. O filme tem “origem” muito mais grave e farsesca.

Quanto ao resultado em si, fica bem dentro do esperado quando se pensa numa produção local querendo falar de assuntos sérios, quando não confeccionada por alguém reconhecidamente bom na arte: o filme tem dinamismo e tenta surpreender a cada esquina; tem atuações até corajosas para os padrões locais; alguns bons momentos que não permitem “monocordismo” como regra; acumulo de esquetes politicamente incorretos com certa assiduidade, bem ao modo dos diretores; ao mesmo tempo que se inscreve fortemente naquela categoria ianque cada vez mais desgastada de filme com pretensões de ser filme de arte, mas que carrega uma aura muito forte que o liga à “escola de agrado a Sundance”. O politicamente incorreto do trabalho poderia ter rendido algo melhor: a controvérsia motivada pela coragem dos atores principais e o acumulo de situações não padrão sucumbem um tanto a necessidades infantis de fazê-lo parecido com obras “mais cabeça”. De toda forma, vale uma pedida.

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