Ao Sul da Fronteira:


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Original: South of the Border
País: EUA
Direção: Oliver Stone
Elenco: Documentário
Duração: 78 min.
Estréia: 04/06/2010
Ano: 2009


Bem ao extremo da inocência mais inconsciente


Autor: Cid Nader

Qual a razão de Oliver Stone resolver fazer um documentário falando dos sistemas vigentes (mais especificamente, dos mandatários) atualmente na América do Sul? À parte a perceptível atração que o diretor parece ter sempre nutrido por esse quinhão do continente americano – já realizou seis trabalhos com nossas aragens -, a impressão pessoal que me restou, a partir de um trecho já bem inicial do filme, é de que agiu como uma criança idealista tentando vociferar contra sistemas políticos bélicos, dominadores, que cometem ingerência ao menor “suspiro suspeito”, normalmente praticados por políticos de seu país de origem. Já a partir desse trecho inicial – onde tenta descaracterizar e desautorizar programas jornalísticos, resgatando e destacando gafes geopolíticas cometidas por âncoras (como se erros específicos pudessem representar todo o pensamento investigativo e analítico de uma das mídias – parte obtusa, sim – mais atuantes no sentido de denúncias importantes: erros que cometeríamos aqui, por ignorância até compreensível, se fôssemos referir a assuntos africanos ou daqueles pequenos países da região ricamente petrolífera do Oriente Médio) de TV -, percebe-se que partirá para uma jornada ideológica que evitará nuances de regiões, especificidades políticas, modos de chegada ao poder, em favor de propalar o poder de afrontamento exercido por Hugo Chavez contra os “demônios ianques”.

Muitas pessoas têm questionado o quanto Oliver Stone teria “levado” para confeccionar trabalho com tal grau de cumplicidade: questionamentos que me parecem um exagero em tal grau “inocente” e acomodado, compatíveis em volume ao que ele fez ao analisar nossa política. Ainda tento crer que ele tenha messianizado líderes locais (notadamente Chavez) por razões de cunho ideológico simples, mono-analítico, por razões de encantamento infantil (talvez fosse melhor classificá-lo: juvenil): se muito, por inveja do modo de fazer documentários, “inventado” por Michael Moore. Sua presença constante o lado dos poderosos entrevistados, o fato de se mostrar próximo deles (como se estivesse fazendo um trabalho chapa branca de encomenda), a “necessidade” evidente de ter de questionar algo após um dos mini-discursos auto-louvatórios proferidos por todos os presidentes que desfilaram para suas lentes (quase todos os da América do Sul) – fato que gerou sempre perguntas insanas e mais burramente ingênuas do que os equívocos evidenciados de seus compatriotas -, somente corroborou que sua empreitada se concretizaria sob consensos e certezas ingênuas.

O pior de tudo é que muito do que é mostrado corresponde a anseios sul-americanos concretizados após diversos momentos de sofrimento imposto por ditaduras, aí sim, patrocinadas por governos lá de cima que temiam o demônio do comunismo. O chato é de ter de colocar no mesmo barco equivocado que carrega as “conclusões” de Stone o processo político que levou Lula ao poder (de matiz sindical, forte em sua luta “tocável”, palpável, na época da opressão); ou a maneira pela qual Cristina Kirchner assumiu uma Argentina devastada por um processo econômico que arrasou feroz e velozmente o sistema de seu país; ou mesmo a maneira pela qual Fernando Lugo apaziguou o Paraguai sempre favelado e sem esperanças. Todos esses e outros citados tiveram seus méritos (têm seus defeitos, também, alguns bem sérios, caminhando paralelos e fazendo ver que nem sempre poderão ser unanimidades), mas cada um ao seu modo. Oliver Stone fez um filme que, em sua inocência analítica, louva às alturas o dirigente da Venezuela, santificando-o sem máculas, fazendo dele o pastor ideal a ser seguido, e o líder inquestionável de um movimento sul-americano que teria surgido de um único ponto, com raízes bolivarianas – fez do continente sua Buenos Aires, capital do Brasil. É trabalho que se conduz e conclui de modo equivocado e reducionista.

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