AS CRÔNICAS DE NÁRNIA: O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA:


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Original: The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe
País: EUA
Direção: Andrew Adamson
Elenco: Georgie Henley, William Moseley, Skandar Keynes, Anna Popplewell, Tilda Swinton, Rupert Everett e Liam Neeson.
Duração: 125
Estréia: 09/12/2005
Ano: 2005


Um conto que se esgota no trailer


Autor: Fábio Yamaji

Há dez anos estreou no Brasil uma anárquica co-produção russo-francesa chamada “Salada Russa em Paris” (Salades Russes, 1993), que confrontava os problemas tanto do socialismo quanto do capitalismo de forma lúdica e cômica – partindo de um acontecimento fantástico: a janela de um apartamento de São Petersburgo dava para o telhado de um prédio em Paris. Escondida atrás de um guarda-roupa, a tal janela é descoberta por desesperançados músicos russos, que piram ao experimentar as delícias da democracia e do consumismo.

O filme que estréia hoje parte desta mesma premissa pra concretizar uma fantasia infantil, e unir dois mundos totalmente diferentes, ainda que ambos vivam em conflitos. O primeiro deles é um casarão no interior da Inglaterra, em plena 2ª Guerra Mundial, e o segundo é um mundo mágico, Nárnia, dominado por uma terrível feiticeira.

Peter, Edmund, Susan e a pequena Lucy são irmãos, deixados pela mãe no casarão, após abandonarem a casa em Londres, que sofre com os bombardeiros alemães. O pai luta na guerra. Reprimidos constantemente por uma severa governanta, o quarteto procura maneiras de fugir do tédio, neste novo lar no meio do nada. Durante uma brincadeira de esconde-esconde, Lucy descobre um enorme guarda-roupa, num dos vários quartos da sombria casa. Esconde-se nela e encontra a passagem para um belo mundo coberto de neve, habitado por seres mitológicos, animais falantes e a temida Feiticeira Branca.

A chegada da molecada a Nárnia combina com uma profecia local, que diz que “quatro filhos de Adão e Eva” acabarão com o reinado da Feiticeira. “Quatro seres humanos” – só podem ser eles! Logo eles saem da situação de vítimas da guerra para salvadores da pátria. É aí que a maionese desanda.

A primeira hora do filme é encantadora - delicada no trato da situação e das personalidades dos jovens “órfãos” e deliciosa na apresentação do portal mágico. Mas depois disso é o diretor que se encanta – e se perde – com as possibilidades da tecnologia digital e a vontade de realizar seqüências grandiosas. A fluência narrativa se esvai, a trama se torna superficial e os personagens são descaracterizados instantaneamente. E o filme “Kaput!” (mesmo com os alemães tendo sido deixados pra trás).

Um filme adaptado de um conto de somente 82 páginas (o número de páginas varia por edição) teria poucas chances de se manter interessante por 140 minutos. A qualidade da produção e do elenco é muito superior à capacidade de Andrew Adamson. Com uma direção melhor focada e uma montagem enxuta a história fatalmente seria outra. “As Crônicas de Nárnia”, portanto, é outro exemplo de filme cujo o trailer é muito mais interessante, pois não traz os seus vazios e não mostra os seus furos.

Nos resta então apreciar as impressionantes criaturas em computação gráfica - em especial o castor e o leão – e a carismática atuação de Georgie Henley, que faz a caçula Lucy. (Já a composição digital é por vezes sofrível. Há momentos em que se percebe que os atores - filmados em chroma key - não estão integrados ao cenário de fundo). Quanto à trilha sonora, Harry Gregson-Williams acerta na melodia. Mas sua música é utilizada excessivamente, sufocando os poucos momentos de reflexão do filme.

“As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, com seu sofisticado mundo particular e suas criaturas maravilhosas, tem muito menos fantasia que o “realista” – e imperdível – “Salada Russa em Paris” (disponível em VHS nas boas locadoras).
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