Em Teu Nome:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Paulo Nascimento
Elenco: Leonardo Machado, Fernanda Moro, Nelson Diniz e César Troncoso.
Duração: 100 min.
Estréia: 28/05/2010
Ano: 2009


Exemplo da dificuldade em contar histórias.


Autor: Cid Nader

Novamente falando da ditadura militar – tema que sempre imagino justo ser rememorado, principalmente num país que nem puniu ou ao menos colocou culpa sincera em quem a manteve, ou em quem fez dela algo mais recrudescente aina do que se constatou no início -, Paulo Nascimento vem dessa vez para contar uma história bem mais real ainda do que as que sofrem cortes mais incisivos em favor da ficção, ou da individualização d]e seres dentro do tema. Já comentei algumas vezes em outras ocasiões sobe o olhar do cinema brasileiro para os momentos mais marcantes de sua história em comparação com o olhar do cinema argentino (aliás, argentinos que batem mais insistentemente nessa tecla dos regimes militares do que nós): lá, nos pampas hermanos, a ideia principal sempre gira em torno da mobilização em massa, dos embates solidários contra o que ocorreu (como uma louvação ao espírito de nação), enquanto aqui, no Brasil, a tendência é da individualização, da pessoalização, como um local que sempre, historicamente, buscou nas figuras únicas motivo de incentivo, de referência, de ideal.

Nascimento conseguiu algumas proezas nesse seu trabalho sobre o assunto: muitas ruins e, algumas boas. Não esqueceu de nossa “tradição” ao tentar um tema sobre figura preponderante sobre o entorno de protagonistas: o guerrilheiro Boni (baseado na figura real, de história real, do ex-exilado João Carlos Bona Garcia), que estuda no início do filme, tem suas pinimbas e algumas desavenças com os que imaginam as armas como uma tentativa de solução para situações mais estressantes do momento, acorda com uns, desacorda com outros, casa-se, foge e tudo mais (como o peque grupo que constitui o núcleo central), mas mantem-se sempre no centro das ações, no olho da câmera, deixando em um patamar um tanto mais ao lado os que o escudam nas ações no desterro; o indivíduo, num caso de imensa coletividade, ganha o aspecto de centro referencial da trama, o que enfraquece explicações, que já vinham enfraquecidas por explicações simplórias sobre motivações e razões para ações de violência similares às executadas pelos carrascos (ato que, explicado mais cuidadosamente, faria com que escapássemos de facilidades conclusivas de teor novelesco).

Para concretizar essas cenas foram engendradas sequências de pouca credibilidade e artificialismo inocente demais (já que se propôs, que o fizesse de modo mais crível, digamos). Artificialismo que perpassou camadas inteiras do trabalho: nos quesitos atuações manipuladas demais, personagens esquemáticos, angulações e opções estéticas de cinema que privilegiaram boas luzes sobre os “bons” e más visibilidades (nebulosidades) aos que não mereceriam ser vistos de “modo bom mesmo”, algumas câmeras lentas desnecessárias, e a apresentação na marra (no início do filme, em uma reunião, com som de estúdio) da até bem bonita música principal do trabalho. O que se percebeu sob essas camadas artificiais é que o filme queria decidir por si próprio os momentos em que o espectador deveria sofrer mais, se indignar mais: reagindo por ele, direcionando-o. Esse é um mal complexo para ser relevado e, de uma maneira ou de outra, vem atrelado à ideia de isolamento de um ser de dentro de uma situação, para que as direções e atenções se concentrem naquele que ditará o ritmo das emoções.

Tanto quanto o assunto é sério a ponto de merecerem atenções os trabalhos que brotam e ainda o relatam, talvez valesse lembrar que há uma compreensão e busca (por vezes tardia, mas nitidamente intricada) bastante forte do que ocorreu naqueles momentos, pela maior parte da população, atualmente: fato que enfraquece qualquer tentativa de direcionamento sobre sentimentos e compreensões. Agora, não dá para negar ao trabalho e ao diretor que o encadeamento imaginado para Em Teu Nome foi esperto e bem realizado, o que faz com que ele vá ganhando a cumplicidade e carinho com o avançar das situações, principalmente na hora em que “larga das armas” e abandona os discursos, para entrar junto com os desterrados pelas outras paragens (principalmente nos momentos do Chile - se bem que haja um certo investimento turístico questionável) por onde tiveram de transitar em fuga: são momentos em que as individualizações criam um aspecto de humanização bastante interessante, com alma de cinema se impondo sobre personagens que até então vinham bastante e forçadamente direcionados.

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