Olhos Azuis:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: José Jofilly
Elenco: David Rasche, Erica Gimpel e Irandhir Santos.
Duração: 111 min.
Estréia: 28/05/2010
Ano: 2009


Terror, terror, terror.


Autor: Cesar Zamberlan

Olhos Azuis, o novo filme de José Joffily tem alguns bons momentos, principalmente quando instala a tensão no escritório do chefe do Departamento de Imigração do aeroporto JFK nos Estados Unidos. Consegue isso devido às boas interpretações do elenco, a nervosa câmera na mão e a montagem. Mas, a maneira caricatural que concebe os personagens e situações joga tudo por terra. Mais que isso gera até certa revolta. E revolta de ordem inversa ao que o filme pretendia gerar. Toda a ideia de mostrar quão indigno é o tratamento dos que procuram imigrar nos EUA, acaba sendo desperdiçada por maniqueísmos e por um roteiro sistemático que empobrece o conteúdo do filme e alguma de suas qualidades formais, sobretudo, quando a trama se desenrola nos EUA.

Já o desdobramento do filme, num tempo futuro no Brasil, arquitetado em montagem paralela às cenas na imigração nos EUA, é construído a partir de uma série de clichês sobre o país, sobre os estrangeiros que para cá vem e sobre a relação destes com o país. Pior que isso, torna logo óbvio o que vai acontecer na sala da imigração, tirando o peso daquilo que poderia gerar um bom filme dentro do filme.

A ideia do filme, e o titulo é uma prova, veio de um famoso documentário exibido à exaustão pelo canal GNT chamado “Blue Eyes”. Nele, uma psicóloga especialista na área de recursos humanos, Jane Elliot, divide dois grupos e um deles passa, com a orientação dela, a massacrar o outro, o de olhos azuis, como forma de mostrar os mecanismos do preconceito quando levados a pontos extremos de pressão.

O blue eyes do filme é Marshall, o chefe do Departamento de Imigração. Dele, um norte-americano de ascendência irlandesa, doente terminal, prestes a se aposentar, e alcoólatra, virá to da a ira contra os latinos que querem migrar. Seus ajudantes, ora descompensados, ora bonzinhos, são uma policial de ascendência afro-americana e um jovem de ascendência chicana, ambos de olho no cargo de Marshall. O discurso é o mais óbvio possível, carregado daquela atmosfera 11 de setembro da era Bush.

Já os imigrantes são lutadores de twaekondo, dois poetas argentinos traficantes, bolivianos, uma dançarino cubana e um recifense que será o elo da trama norte-americana com a brasileira na montagem paralela. O escritório vira então o palco de uma bizarra apresentação de impropérios – e aí entra a “inspiração” do documentário – na qual os chicanos são submetidos à toda espécie de tortura psicológica.

Os motivos que levam Marshall a vir ao Brasil, sua tentativa de redenção na parte brasileira do filme, caem em maniqueísmo e facilidades ainda piores. E o filme só não é uma tragédia total porque tem um acabamento bom, uma artesania bem feita e um elenco bom, com destaque para Marshall interpretado por David Rasche, para Bia, a jovem prostituta com o qual ele se envolve, interpretada por Cristina Lago e para Nonato, o brasileiro discriminado na alfândega norte-americana, interpretado por Irandhir Santos.

Joffily que não parece um mal cineasta, continua fazendo filmes desinteressantes. Aindo acho que “Urubus e Papagaios”, de 1986, seu melhor filme. O mais verdadeiro nos seus problemas.

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