O Escritor Fantasma:


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Original: The Ghost Writer
País: França/Alemanha/Reino Unido
Direção: Roman Polanski
Elenco: Ewan McGregor, Pierce Borsman e Kim Cattrall.
Duração: 128 min.
Estréia: 28/05/2010
Ano: 2009


Nada como um grande filme de vez em quando.


Autor: Cid Nader

Se fosse obrigatório - por algum tipo de decreto tirânico qualquer – a todos que assistem cinema proferir opinião que resumisse a arte somente a uma definição que fosse sobre sua razão de ser, eu cá, certo de que ao menos não cometeria desatino por amedrontamento, escolheria a “elegância no modo de filmar” como a característica definitiva e indispensável. Certo, que “elegância no modo de filmar” pode conter variadas interpretações do que seria a tal elegância, mas mais certo ainda é o fato dessa tal elegância significar uma redução literária a um único termo, que pode abranger dentro de suas possíveis morfologias a adjetivação de incisividade no filmar, ou a numeração de modo único (um, portanto, na acepção de coisa única) aceitável, a transformação do ato no verbo “ser” (utilizado no tempo presente mais comum e direto com um “é” - é assim que tem de ser, e ponto final), ou ainda à substantivação por “cinema” (pois cinema é a arte de filmar, da utilização das imagens, afinal de contas).

Vamos às possibilidades decenais (em anos, mas à frente, com certeza, em séculos) que podemos percorrer e, de dentro, dos que atuam dirigindo filmes, uma das pouquíssimas figuras que poderia ser pescada sem nenhum modo de contestação quanto a essa firmeza no filmar, no manuseio das imagens, na confecção completa da arte, seria o polonês/mundial Roman Polanski. De obra extensa, que percorreu diversas escolas, acompanhou vários modismos, o diretor sempre se manteve como figura forte do cinema de qualidade que ainda restou dos momentos mais turbilhonados e ricos (por quantidade, por momentos históricos, por situações revolucionárias nos quesitos aspectos e transformações sociais), e com uma característica europeia (mesmo tendo filmado fora do Velho Continente por vezes) indissociável da lembrança física que mantemos armazenada dele. Polanski, o grande diretor, o revolucionário, o que toca profundezas de difícil alcance, o que remexe entranhas, o que estrutura suspenses narrativos.

O Escritor Fantasma é esse seu novo trabalho, que marcou demais quando o vi pela certeza dos caminhos das lentes, pela legítima clareza das imagens e dos ambientes esquadrinhados, o que seria suficiente para tentar brecar por aqui mesmo qualquer tipo de avaliação ou de intromissão no que o filme teria a nos contar por todo seu percurso. Não sei se não tenho visto cinema tão bem realizado a tempos (acho que nesse ano somente o filme de outro mestre do mesmo calibre, Martin Scorsese, “A Ilha do Medo”), mas sei que o diretor polonês quando surge com um novo trabalho (quase sempre), no mínimo, consegue suprir essa alça tão maltratada que é a da qualidade (elegância) no modo de apresentar o filmado. Realizado quase o tempo todo numa ilha chuvosa dos Estados Unidos, há a evidente manipulação e bom esquadrinhamento do ambiente em favor das sequencias que seriam retratadas. O ambiente chuvoso e quase hostil da natureza, fazia confirmar a certeza das qualidades do tempo nublado para quem sabe manusear uma câmera, e o filme se aproveitou disso com imagens de amplo aspecto pictórico, criados pelas nuances e sombras das luzes naturais. Não aconteceram deslizes nesse domínio geográfico do ambiente, e cada momento de transposição dos cenários captados revelava que desde sempre tudo já “estava dominado”: a elaboração estrutural do que seria feito era fato concretizado muito antes dos “trabalhos” - coisa óbvia, que somente ratifica que saber filmar (emprestar elegância) requer capacidade e domínio total das situações.

Há quase que uma captura do olhar por parte do trabalho: manifestação do principal mote do cinema, que se impôs de maneira tão forte e concreta a ponto de me fazer temer ser causador de injustiça ao não citar a situação narrada dos fatos que possibilitaram uma trama do mais forte apego (certeza suspensiva) hitchokiano. O filme embola uma situação política a uma morte (provável suicídio) repentina, e o fato de Ewan McGregor (com uma bela atuação, diga-se de passagem) ser jogado repentinamente na situação, percebendo (ou imaginado perceber) que quase tudo do que se passa na primeira camada pode ser fruto de enganação, de engendramento político, transfere muito do nosso sensorial em direção do rememorado das obras de mais um mestre, o grande Alfred Hitchcock. Junto com a qualidade no filmar e editar, o trabalho se ampara na alternância de informações e cenas em que algo pode repentinamente vir a acontecer. Há ritmo e dinâmica que remetem a lembrar do grande gênio britânico do suspense – inclusive na maneira em que são dispostas as músicas e a trilha incidental. Se algum espectador for tão “simples” a ponto de não reparar que O Escritor Fantasma é obra de alguém que sabe da elegância no poder das imagens, ao menos, esse “algum espectador simples” poderá se refestelar assustado na cadeira do cinema sob o peso da trama e seus picos. Afinal, filme bom pode, também, agradar por variadas opções, não é mesmo? Esse é muito mais do que “só bom”: é um grande filme.

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