REIS E RAINHAS:


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Original: Rois et reine
País: França
Direção: Arnauld Desplechin
Elenco: Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Catherine Denueve, Hippolyte Girardot e Maurice Garrel.
Duração: 150
Estréia: 09/12/2005
Ano: 2004


Um filme acima de tudo de direção, de mise en scéne


Autor: Fernando Watanabe

Existe um novo cinema francês que, surgido no início dos anos 90, ganha cada vez mais importância no cenário cinematográfico contemporâneo, apesar da crítica internacional não estar dando suficiente destaque a esta geração, a principal exceção é a Cahiers du Cinema, obviamente. A conseqüência é o fato de que quem acompanha cinema pelos veículos tradicionais de informação, ainda associar cinema francês a uma mitificada Nouvelle Vague, chegando a ponto de muitos estarem atestando a decadência cinematográfica do país que inventou o cinematógrafo. Pois bem, Olivier Assayas, Claire Denis, Cedric Kahn e Arnaud Desplechin estão aí para provar o contrário. Não chega a se configurar como movimento, uma vez que a articulação produtiva e pessoal da Avant Guarde dos anos 20 ou da Nouvelle Vague dos anos 60 não se faz presente aqui de maneira tão marcante. Mas, esteticamente, há uma fonte comum a todos esses realizadores: Maurice Pialat, o verdadeiro cineasta maldito francês - possivelmente mais à margem que o próprio Godard. Pialat “perdeu” a nova onda, e surgiu apenas após o auge daquele movimento, justamente no intervalo entre a famosa turma de 60 e os novos realizadores dos anos 90. Não cabe aqui se aprofundar em Pialat, mas - a fim de compreender o novo filme de Arnaud Desplechin - comentar sua maior herança a esta nova geração: um cinema de personagem.

E Desplechin continua aqui seu trabalho iniciado em filmes como “A Sentinela” e “Esther Kahn” que consiste em achar sempre a forma adequada a expressar determinado conteúdo. Em “Reis e Rainhas”, ele se apropria das convenções melodramáticas para criar a estrutura básica do filme: uma história sobre a família, de perda de entes queridos, de idas e vindas de personagens e, principalmente, propiciar ao espectador compartilhar da intimidade privada daquelas pessoas.

Mas, o filme ultrapassa todas essas convenções do melodrama por uma simples razão: a devoção do cineasta para com seus personagens. A linguagem - literária, visual e sonora - do filme é subserviente à Nora (Emanuelle Devos), Ismael (Mathieu Almaric), ao pai de Nora (Maurice Garrel) e a toda a interminável galeria de personagens que, a cada cena, são acrescentados. Isso poderia ser um perigo, pois esta abertura a novas pessoas geralmente se torna um filme painel (vide o “Código Desconhecido” de Haneke ou “Prêt à Porter” de Altman ) que resulta em unidimensionalidade dos personagens. Mas, Desplechin consegue agregá-los à narrativa com sucesso por um motivo bem simples: ao invés de utilizá-los como meros bonecos que cumpram as exigências do roteiro para constituir a voz do cineasta, o diretor, utilizando os personagens principais acima citados como âncoras de todas as situações, investe sua energia nem tanto na situação em si, mas principalmente no relacionamento entre essas pessoas. Simples assim. Algumas cenas funcionam menos dentro da narrativa que outras - a seqüência que explica a morte de Pierre é a parte fraca do filme, o momento no qual Desplechin não resiste ao sentimentalismo de efeito, melodramático -, mas independente disso, sempre ficamos curiosos não para saber o que vai acontecer depois, mas em compartilhar daquelas relações interpessoais explosivas, fraternais, ressentidas ou generosas.

Um filme acima de tudo de direção, de mise en scéne. Visualmente, segue-se a mesma lógica. No início de várias cenas, a câmera aproxima-se lentamente, delicadamente dos personagens que conversam, pois há um respeito por eles, a intimidade tem que ser compartilhada por nós, mas o diretor tenta não ser tão invasivo. A câmera parece estar imantada aos personagens, ela acompanha o menor movimento daqueles corpos, resultando no nosso interesse em desvendar os menores gestos. E, com tomadas próximas dos rostos de perfil ao contrário da tradicional frontalidade, pede-se a nós que olhemos por outro ângulo aquelas pessoas e que não as julguemos de forma apressada e simplista. Claro que essa atitude leva a uma considerável perda do trabalho espacial, nunca chegamos a ter noção clara de algumas locações essenciais a trama, como as casas de família, tão essenciais, à exceção é o museu do epílogo, muito emblemático. Mas, a coerência conceitual pede que os espaços sejam sentidos por nós como os personagens o percebem, e Desplechin o faz. Quando Ismael diz “ estou preso”, a câmera toma um ponto de vista externo, pela janela e suas grades. Ou quando Nora perde o avião no aeroporto, uma tomada de cima que enquadra um enorme espaço morto apequena essa mulher, desolada no vazio. Mas essa transparência toda é quebrada por alguns “faux racords” abruptos. Mesmo alguns deles estão de acordo com o fluxo mental dos personagens, como quando Nora está inquieta, corta-se dela para ela mesma várias vezes. Em outros momentos, esse recurso nos afasta por breves momentos daquele mundo.

Mas que mundo é esse? O nosso sem dúvida, mas é necessário que não se entenda isso como um apego ao realismo. Por outro lado, foge-se da idealização sentimental que o melodrama utiliza para criar apego aos personagens. Em “Reis e Rainha” não se escondem as falhas, as imperfeições das pessoas. E, mais do que isso, há a abertura aos sentimentos mais contraditórios porém sinceros. Quando o pai de Nora, já morto, aparece em uma imagem sombria destilando sua amargura em relação à filha - “eu queria que o câncer que me acometeu tivesse pegado você antes” - há menos a subversão de um tradicional moralismo ético do que a compreensão daqueles sentimentos, mais humanos do que nunca. O Epílogo, no qual Ismael, comunica ao garoto Elias de que não irá adotá-lo não frustra, nem surpreende aos espectadores acostumados a finais felizes. Porque não é um final triste. É apenas a aceitação da vida como ela se apresenta a nós, não há razão para forjar clímax de felicidade ou tristeza.

A singularidade do novo filme de Arnaud Desplechin é conjugar heranças de duas tendências diametralmente opostas do cinema francês. O cinema livre do jovem Godard da Nouvelle Vague - faux raccords, entradas abruptas de músicas, entrevistas - mais o amor aos personagens de Maurice Pialat. Essa soma resulta numa raridade paradoxal: um filme autoral mas que não impõe um estilo, cinema de partes soltas mas com extrema coesão, cerebral na execução sem se apoiar no conceitualismo, e utiliza-se da ilusão artificial do cinema para fazer uma verdade humana emergir. Contraditório em si, assim como a vida.
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