Quincas Berro D'Água:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sérgio Machado
Elenco: Paulo José, Marieta Severo e Mariana Ximenes.
Duração: 104 min.
Estréia: 21/05/2010
Ano: 2010


Tom de chanchada afasta filme do lirismo e realismo de Jorge Amado


Autor: Cesar Zamberlan

Romance pequeno, rápido, “A morte e a Morte de Quincas Berro Dágua”, publicado pela primeira vez na revista Senhor em 1959, é um dos mais belos livros de Jorge Amado. A obra foi adaptada para a televisão em 1968 na extinta Tupi; dez anos depois, virou um caso especial na TV Globo, com direção de Walter Avancini, tendo Paulo Gracindo no papel principal; e agora, em 2010, chega aos cinemas em filme dirigido por Sérgio Machado, com Paulo José como Quincas.

Sérgio Machado é o diretor de “Onde a Terra Acaba” (2001), documentário sobre o cineasta Mário Peixoto, e de “Cidade Baixa” (2005), além de ter feito outros trabalhos para TV, entre eles, a série “Pastores da Noite” (2002), também baseada em textos de Jorge Amado.

Da união de um diretor talentoso, que filmou a Bahia de forma tão vigorosa em “Cidade Baixa”, e um texto de tamanho lirismo de Jorge Amado esperava-se um casamento melhor. Mas a opção de Sérgio Machado por uma leitura em tom de chanchada leva a obra de Jorge Amado a caminhos distantes do livro e bem menos interessantes.

Defendo a total liberdade do diretor de fazer aquilo que ele quiser com o livro que adapta. Seja qual for o diretor, seja qual for o livro. Pensar em fidelidade é algo totalmente absurdo. São meios diferentes, formas narrativas diferentes, gramáticas diferentes. Mas... feita a opção de leitura, estando o filme na tela, nada nos impede de discutir se o filme se sustenta enquanto obra cinematográfica independente do livro e, principalmente, de fazer o gostoso exercício de comparar livro e filme para ver quais aproximações são possíveis ou não.

Certo é que poucas são as adaptações de grandes clássicos da literatura brasileira - e mundial também - que resultam em obras tão grandes quanto os livros que adaptam. No Brasil, “Vidas Secas” e “São Bernardo” de Graciliano Ramos e “Macunaíma” de Mário de Andrade tiveram equivalentes à altura; outros livros tiveram boas adaptações, mas, na maioria das vezes, o diálogo não é dos mais inteligentes.

Em se tratando de Jorge Amado, cuja obra é tão cinematográfica, a melhor adaptação ainda são as duas de Nelson Pereira do Santos – cineasta que melhor dialoga com a literatura brasileira – nos filmes “Jubiabá” (1987) e “Tenda dos Milagres” (1977), e, sobretudo, a famosa adaptação de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” de Bruno Barreto (1976).

No caso do filme de Sérgio Machado, as opções do diretor acabam não resultando num bom filme - independente do livro. E, pensando no livro, aí o desastre é até maior.

Ao apostar num ritmo “chancharesco”, o filme de Machado torna os personagens caricatos e as ações mais dadas à comédia, às vezes, próximas à linha da comédia dos Trapalhões, do que ao realismo quase antropológico da ficção de Amado. Personagens fortes, humanos, viram tipos excêntricos, quase quadros de programas de humor rasteiro. Do quarteto de amigos de Quincas, no filme, apenas Curió é retratado de maneira mais simpática e todas as tramas inventadas por Machado só aumentam esse desconforto dado o ritmo veloz e fácil da chanchada.

As invenções de Machado em relação ao livro são muitas. A primeira delas é a voz do morto em off, sendo que o livro é narrado em 3ª pessoa. Outra é a festa surpresa que marca o início do filme. No livro, depois do rapto do corpo, os amigos cogitam que pode ser o dia do aniversário de Quincas, mas tal alusão é tão fantástica quanto todos outros episódios do livro, que, de maneira lírica, passa, assim como os amigos, a dar a Quincas uma sobrevida entre a primeira morte e a segunda após o rapto do corpo. No livro, Quincas fala e até age, pois o narrador embarca na embriaguez e loucura dos personagens que não aceitam a morte do parceiro.

Outra invenção é que a família, no livro, não mais aparece após deixar o corpo com os amigos de Quincas. Não há, como no filme, essa tentativa de resgatar o corpo. Tentativa, aliás, que vai gerar no filme a perseguição aos raptores e as cenas no terreiro de Umbanda, no bordel, o roubo da galinha, as cenas na delegacia e o desfecho com Nanda e seu esposo Leonardo nos braços de terceiros.

No livro, os quatro amigos fogem com o corpo, pois a fome os faz lembrar que era dia da moqueca do Mestre Manoel e para não deixar Quincas sozinho, o levam junto até o saveiro do amigo, sem antes passar por alguns poucos lugares, até o passeio de mar na tempestade que resultará na segunda morte de Quincas.

Dois belos momentos do livro, esquecidos pelo filme, ocorrem quando a notícia da morte de Quincas se espalha por Salvador com o quarteto se buscando para visitá-lo no velório e o segundo quando o quarteto discute no velório para ver quem vai ficar com Quitéria, amante de Quincas. Amante baiana diga-se e não espanhola como a Manuela, interpretada no filme de maneira extremamente caricata por Marieta Severo.

Sérgio Machado modificou bastante o material que tinha em mãos e as mudanças, seja no tom da narrativa, seja no ritmo, seja na construção de novos episódios deram a obra outra cara - bem sem graça, aliás -, fora isso, tirou todo o peso de personagens bem interessantes como Negro Pastinha e Cabo Martin.

Diante da inevitável pergunta: quem é melhor livro ou filme? É possível responder, feitas todas as ressalvas das diferenças de suporte, algumas apontadas acima em respeito à fidelidade, que na obra de Jorge Amado como bem definiu Lilia Schwarcz, “é difícil dizer onde começa a ficção e quando termina a realidade”. Já esta obra de Sérgio Machado aponta o tempo todo para a farsa, para a mais deslavada chanchada. Nada contra a chanchada, pelo contrário, mas aqui ela mal cabe e faz sucumbir um belo texto e belos personagens. Sérgio Machado leu muito mal Jorge Amado.

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