CELESTE E ESTRELA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Betse de Paula
Elenco: Dira Paes, Fábio Nassar, Ana Paula Arósio, Mark Hopkins, Hugo Rodas, Henrique Rovira, Carmen Moretzsohn, Nívea Hellen, Ricardo Machado, Alexandre Picarelli e Iara Pietricovsky.
Duração: 96
Estréia: 2/12/2005
Ano: 2003


"Celeste e Estrela" - Betse dá a volta por cima


Autor: Cid Nader

Estranha essa coincidência que coloca nas telas uma produção - "Celeste e "Estrela" - que usa Brasília como cenário e fonte física de inspiração, uma semana após outro filme - "As Vidas de Maria", abaixo de qualquer comentário - que também tem a capital federal como seu porto e, ainda por cima, no mesmo período em que ocorre seu festival, que chega perto dos 40 anos e é considerado, por muitos, como o mais representativo de nossa cinematografia e de participação popular mais exigente e qualificada.

Coincidência maior ainda - e bastante feliz - pelo fato de, 1 ou 2 meses para cá, grandes produções nacionais terem saído da mesa de edição para nos alentar e dar esperanças quanto a um futuro que parecia estar chegando em meio a muita nebulosidade, a saber: os maravilhosos "Cinema, Aspirinas e Urubus" de Marcelo Gomes, "Crime Delicado" de Beto Brant (ainda inédito), o - não maravilhoso, mas bom - "Cidade Baixa" de Sérgio Machado, fora os documentários "O Fim e o Príncipio" de Eduardo Coutinho e "Pro Dia Nascer Feliz" de João Jardim (também inédito)

O novo trabalho de Betse de Paula, que estréia nesta sexta no Cinesesc - onde, talvez, encontre o público mais afinado em se tratando de um "meta-filme" - me proporcionou duas possibilidades de conclusão, quando comparado á sua obra anterior, "O Casamento de Louise": 1) ou ela deu um "baita" salto à frente e amadureceu, podendo colocar em prática seus conhecimentos cinematográficos com maior liberdade, aproveitando um pouco mais a "bagagem" que só o tempo nos fornece ou, 2) em momento de má vontade, num mau dia ou sem jogo de cintura suficiente, eu que não consegui captar as qualidades e sutilezas de sua obra inicial.

O fato, é que "Celeste e Estrela" nos apresenta uma diretora com bom domínio e segurança sobre a arte na qual trabalha. Conta a história de dois aspirantes à carreira de cineasta, Paulo Estrela (Fábio Nassar) e Celeste do Espírito Santo (Dira Paes, como manda bem esa atriz), que se cruzam fugazmente durante a premiação do Festival de Brasília onde, ela, esfusiante, arrebata quase todos os prêmios em sua categoria, deixando-o como coadjuvante ofuscado, com sua única estatueta. O destino se encarregará de cruzar seus caminhos mais à frente? Adivinhe!

Um dos pontos fortes do filmes está no humor inteligente, que dá uma carinhosa cutucada no mundo do cinema nacional e seus vícios. Quando aspirantes à carreira excursionam através dos cursos para roteiristas que assolam o mercado - caricaturizando tanto atentos alunos como onipresentes mestres e seus manuais maniqueístas e donos da única verdade. Na procura da realização de um projeto, quando Celeste descobre o quão duro é transcorrer os caminhos tortuosos da burocracia, quanta maracutaia é sugerida ou oferecida por quem tem dinheiro e antevê a possibilidade de "engordá-lo" um pouco mais através do "bom uso" das leis de incentivo. Usa e abusa - com a boca dos personagens - dos modismos e neologismos que infestam conversas, escritos e discussões do pessoal da área; captou? Brinca com nomes de cineastas, roteiristas e produtores. E - melhor truque - cria um meta-cinema, usando personagens - escravagista, esposa e mucama - que, ao perderem cada vez mais espaço pelo "enxugamento necessário" na tentativa de adeqüação "aos recursos aferidos", passam a participar mais, a opinar e a torcer - pensando nos seus futuros, obviamente.

Talvez o espectador possa se ressentir de um certo atropelo na montagem, solicitando um espaço de calmaria; um respiro. O personagem de Ana Paula Arósio aparece caricato, sem nuances, monocórdico demais.

São dois pequenos problemas, num filme esperto e honesto, que não abusa dos malabarismos técnicos e é cheio de boas intenções e boas sacadas. Um filme estereótipo, no bom sentido.
Leia também: