Pecados de Meu Pai:


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Original: Pecados de Mi Padre
País: Argentina/Colômbia
Direção: Nicolás Entel
Elenco: Documentário
Duração: 89 min.
Estréia: 14/05/2010
Ano: 2009


Poderia mais


Autor: Cid Nader

O mais impactante nesse documentário – que, sob pretexto de falar um pouco da vida do mega-narco-traficante colombiano Pablo Escobar, acaba revelando o que sobrou de tormento para seu filho e para os filhos de políticos mortos por ele – feito pelo diretor argentino Nicolas Entel, sob encomenda para a Discovery Channel Latina, é a constatação do poder financeiro que alcançou Escobar, e, mais ainda, o quanto o mundo rico acabou por patrocinar, indiretamente, mas por vício, atitudes robinhoodianas dele para com grande parte dos pobres de seu país, mais particularmente dos pobres de Medellin. Antes de mostrá-lo despirocando totalmente – fato tão óbvio de suceder quanto a chuva nos fins de tarde amazônicos -, quando passou do “simples” patamar de bon vivant que apaziguava um pouco de sua culpa revertendo lucros em favor dos do seu entorno, para algo como um rato acuado por pressões (pressões, muitas delas de origem justa e imprimidas por pessoas corretas – sabendo-se que nem sempre tiveram origem nobre), o documentário acaba fazendo perceber (inconscientemente) o quanto a dependência da droga gerava, já naquela época, anos 80 e 90, dinheiro farto, e o quanto a “natureza” parece que tomava para si um pouco do papel de vingadora dos oprimidos pelos ricos, que com excesso, entravam de cabeça na cocaína, gastando sem se importar para sustentá-lo.

Sem querer, todo o início do trabalho choca – e revela-se importante - por determinar quase que por linha visível a separação entre o primeiro e o nosso mundo. Escobar era adorado por muitos, fazia por eles, tomou nas mãos o papel que deveria ser dos governos e da instituição Estado. Isso bate forte no âmago de quem enfrentar a música melodiosa e a construção careta do filme, observando-o por viés mais atento e botando a cuca para funcionar, elucubrar, deduzir. Tanto quanto fica nítido – para quem se propôs a ultrapassar as informações e o manejo mastigado e direcionado do filme – que essa bondade executada por ele era tão artificial e interesseira, quanto seu modo tranquilo de aparentar ser: pois virou monstro quando acuado, agiu como seria de se esperar. Dá para se pensar de modo bem m ais profundo nas relações entre os ricos e os pobres, nas motivações de cada um, nas necessidades de cada parte, também.

Por querer, o todo do trabalho procura uma quase individualização de dores sofridas e restadas das atitudes já insanamente violentas do Pablo acuado, fazendo perceber na construção elementar do trabalho a ideia original: que era a de nos mostrar o quanto sofreram após os atos de assassinatos os filhos de ambos os lados, e o quanto seria cristão retratar o desejo de encontro e pedidos de perdão (com óbvias respostas de “estás perdoado”) nutridos pelo filho do narcotraficante e ansiado (após a constatação de que ele seria possível) pelos filhos dos que foram assassinados (os políticos, obviamente, não se fala aqui dos mortais).

A paciência do diretor em aguardar anos para que tal final pudesse ser alcançado é até louvável – pensando-se nisso como ato de construção cinematográfica (valendo lembrar que há imagens de arquivo familiar inimagináveis – além das muitas resgatadas de noticiários -, onde percebe-se o quanto o ser humano pode se entrincheirar no núcleo familiar, fazendo-o toda a razão de viver) . O ato cristão em si, também – na realidade gerou uma situação de expiação rara de ser constatada por qualquer modelo de “registro vivo”. Mas a forma final, o objetivo a ser alcançado ao final, as fases montadas ao estilo de algo palatável para uma emissora de TV: enfim, a falta de percepção da potência sociológica que se tinha à mão, em favor da supervalorização do lado “apenas” emotivo-nuclear, deixam uma sensação de que algo muito bom, resultou algo comum, com fortes propensões ao emotivo. Daria para ter rendido mais.

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