Luzes na Escuridão:


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Original: Lights in the Dusk
País: Finlândia
Direção: Aki Kaurismäki
Elenco: Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi, Maria Heiskanen.
Duração: 78 min.
Estréia: 07/05/2010
Ano: 2006


A Finlândia pelos olhos de quem a retrata


Autor: Cid Nader

A Finlândia, aos olhos do distante mundo geográfico que a observa com olhos invejosos, é um dos países que carrega em si um admirável padrão de vida, limpeza e sobriedade social. Na apreciação deste mesmo público, típico país nórdico, que se estabeleceu e cresceu pela imperiosa necessidade de sobrevivência ditada pelo frio intenso, que impossibilitaria a sobrevivência de pessoas mais "light" na maneira de pensar o futuro. Não deixam de ter bastante teor de verdade tais pressuposições, mas não deixa de ser verdade, também, que o país é um típico produto - e produtor de pessoas - do isolamento geográfico causado pelas condições climáticas e distanciamento "físico" natural, num fato que resulta diferenciadas maneiras de comportamento, concepção de vida ou manifestações artísticas. Comento, constantemente, apreciar bastante a cultura advinda desses "povos do isolamento". Aki Kaurismaki, diretor de cinema dessa região, não escapa de sua realidade e a filma como um típico produto criado por ela.

O diretor nos traz, invariavelmente, uma Finlândia muito mais real em sua existência "particular" do que aquela imaginada pelos admiradores mais sonhadores. Ele revela-se sempre um grande observador dos seus, não os renega e, melhor ainda, vem construindo uma carreira toda centrada em "sua aldeia" (vale lembrar que o filme é de 2006, e esse texto foi feito por mim na ocasião, por conta de uma exibição na “Festival de Cinema do Rio de Janeiro”). Luzes na Escuridão é somente uma continuidade natural na construção dessa obra. Tal "somente" não no sentido de mesmice ou baixa qualidade - pois o filme é uma pequena jóia de precisão -, mas como evidência natural dessa continuidade. No filme estão os personagens meio-tristes, calados, que não explicitam as emoções abertamente mas se comportam com dignidade - toda uma coletânea de tipos que habitam seus outros filmes. Seus personagens vêm seguindo um destino trágico/grandioso - o que se repete aqui -, que não se revela através de atitudes grandiosas, e sim por pequenos gestos, tímidos movimentos, poucas palavras e muita honradez.

Quando constrói seus tipos, quando determina seu modo de atuação, já está imaginado seu desenvolvimento diante das câmeras e o modo que utilizará para recortá-los - dentro das cenas - na mesa de montagem. Seus filmes - e, novamente, esse também - são "desdramatizados": as cenas não tem ação intermediária, elas se insinuam, revelam o que virá a acontecer, estancam, e desfecham logo após, sem nenhum tipo de agitação extra. É mais ou menos assim, um exemplo: o personagem principal, um agente de segurança, vê um cachorro eternamente parado à porta de um bar; indignado entra e cobra de seus mal-encarados donos um atitude mais humana; eles saem de cena, a câmera permanece fixa na mesa enquanto - pressupostamente - alguma ação mais determinante acontece fora de seu alcance de visão; todos os personagens retornam ao campo de visão e percebe-se o que sucedeu, sem ação dramática explicitada. É como encara seu país: quieto e sem manifestações que denunciem sentimentos facilmente. Exige que se o observe de maneira lúcida e atenta para realmente compreendê-lo.

Essa pequena joia, revela-se um resumo de suas eternas intenções, com seu herói calmo, tranquilo e não conformado, com seus bandidos "cool", com sua música que caminha pelas extremidades - bregas, antigas e distantes, como o tango, ou tocadas em lugares bastante marginais -, com sua insistente amizade a atores amigos de início de jornada, com seu anti-glamour, anti-"tour-de-force" e anti-espetáculo. A Finlândia tem luz diferente e Kaurismaki sabe de sua beleza, e como filmá-la.

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