A Hora do Pesadelo:


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Original: A Nightmare on Elm Street
País: EUA
Direção: Samuel Bayer
Elenco: Jackie Earle Haley, Kyle Gallner e Rooney Mara.
Duração: 98 min.
Estréia: 07/05/2010
Ano: 2010


Desonra ao terror?


Autor: Cid Nader

O cinema de sustinhos, a partir de um dado momento (mais especificamente localizado na década de 80), passou a se armar de sangue e excessos sonoros em momentos inesperados para atingir certeiramente âmagos humanos que “temem” lá nas mais recônditas estruturas da formação de nossos cérebros. Como se jogassem no lixo décadas de sabedoria e investigação de nossa psiquê, reveladas e descortinadas por alguns grandes mestres da arte (só para citar dois dos mais facilmente reconhecíveis: Alfred Hitchock, ou Roger Corman e suas adaptações de obras Edgar Allan Poe – daí a lembrar de atores que trabalharam em filmes de que assustam com classe, como Vincent Price ou Boris Karloff, um belo passo). Criar clima, assustar, fazer tremer, saber que pontos devem ser tocados sem serem quase que tocados fisicamente é arte finíssima e das mais respeitáveis no mundo das artes. O cinema soube traçar seu caminho com maestria criando ícones e referências que viraram sinal de aterrorização. Aí vêm esses produtores desses filmes que apostam na porrada via imagem e estômagos virados e acabam por criar clima de expectativa e algum tipo de marca identificável a qualquer signo jogado ao ar. Uma pena.

Não que sejam execráveis totalmente filmes que jorrem sangue na tela – tenho até apreço por alguns modelos, não sou careta, não sou adepto de métodos únicos e inquestionáveis. Mas é que não dá para colocar no mesmo barco, na mesma toada, o grande e inventivo exercício do cinema trash, por exemplo: caminho assumidamente calcado em poucos recursos como sustentáculo (sustentáculo, tão frágil, por ideais acomodados, quanto forte, pela inversão de golpe que se aplica ante essa falta de recursos), que abusa do non sénse e das “excrecências” como mote confiável para sua adaptação estética; a partir de assumir que a arte deve traçar caminhos diversos para se referir, os filmes desse naipe se estabelecem num patamar de confiabilidade idealista que pode até ser questionada como resultado, por alguns, mas não pelo quesito honestidade de proposta (cartas abertas na mesa).

Não creio jamais questionável – muito menos comparável ao modelo de produção que visa o faturamento via “sustos fáceis”, como o que nos é oferecido pelos “A Hora do Pesadelo” - a utilização de sangue e módulos evidenciados (momentos pontuais onde o som e imagens súbitas tomam de assalto repentino a tela) ao estilo exercitado por José Mojica Marins, como outro exemplo: o Zé do Caixão protagonizado e criado por ele se estabeleceu no imaginário por força de terror psicológico (mesmo com o uso abusivo de sangue e tal) antes de tudo. Ao contrário do Freddy Krueger, há uma questão autoral embutida na história: a repetição do tipo tupiniquim tem força sob aspectos diversos, como o mesmo ator e autor, como uma sina a ser perseguida, como aspectos demoníacos “facilmente” perceptíveis na formação de nossa psiquê (como citei acima), mas com base em antiguidades atávicas, de conotação religiosa, ou a opção por uma estética de não apego ao visual requintado, ou ainda mais a um conceito particular de percepçaõ e de compreensão do cinema.

Em A Hora do Pesadelo, o sangue é levado a sério – se aposta em seu jorramento como complemento visual inseparável do sustos aditivados e provocados pelo som. O sangue não deveria ser considerado como elemento de susto pelo montante, sendo sua utilização algo de incrível poder pictórico dentro de nossa essência e compreensão (ou depreensão não superficial). Não dá para comparar o que se faz aqui nesse filme – que tenta ganhar valor ao abordar as razões que fizeram existir a figura de Freddy dentro dos sonhos dos sempre jovens protagonistas, mas sem qualidade pela superficialidade do obtido e imaginado -, com o sangue, com o que se faz no cinema de lutas, no cinema coreano, ou no subtraído dos graphics ou mangás. É uma outra viagem. Há outra razões, motivações. Não há a sinceridade aqui: há a busca do público pipoquento (o que tem de se municiar de pipoca). Lá, há desde razões gráficas (ao menos honestas), a razões religiosas, ou de cumplicidade com o líquido que, afinal, nos mantém vivos, enquanto circula.

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