O Inferno de Henri-Georgés Clouzot :


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Original: L'enfer
País: França
Direção: Serge Bromberg, Ruxandra Medrea
Elenco: Documentário
Duração: 94 min.
Estréia: 07/05/2010
Ano: 2009


Epifania e a beleza de Romy Schneider


Autor: Laura Cánepa

Um dos temas mais apaixonantes sobre o cinema é o dos filmes que, por qualquer razão, não chegaram a ser feitos. Sobre eles, paira a eterna expectativa e todo tipo de especulação cinéfila, especialmente se os motivos do fracasso envolverem histórias estranhas ou curiosas.

Outro tema que também faz a alegria dos amantes do cinema é o dos bastidores de grandes filmes, supostamente capazes de revelar os momentos “epifânicos” de criação e superação ocorridos durante a produção de obras que não cansamos de assistir.

E é exatamente nesse espaço mítico dos grandes filmes não feitos e do que foi feito por trás dos grandes filmes que reside o encanto do documentário francês O Inferno de Clouzot, que trata da quase trágica experiência vivida pelo cineasta Henri-Georges Clouzot e sua equipe, em 1964, quando tentaram fazer o ambicioso e delirante "O Inferno", estrelado por Romy Schneider e Serge Reggiani.

Em termos de estrutura de documentário, o longa de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea não foge muito ao convencional, ainda que tenha contado com depoimentos de grandes estrelas do cinema como Costa Gavras, que foi um dos assistentes de direção do longa inacabado. Mas o tom adotado de um "documentário de TV", no caso, é uma opção absolutamente acertada, pois o material que os restauradores e documentaristas tinham nas mãos provoca uma surpresa tão grande que dispensa arroubos experimentais ou expressivos do filme dedicado a mostrá-lo.

E o que se vê é uma das aventuras mais interessantes do cinema francês dos anos 1960, quando um cineasta tido como acadêmico pela nouvelle vague decidiu fazer um filme experimental e, apesar disso, acabou atraindo dinheiro de Hollywood e dezenas de técnicos que foram desafiados a produzir sons, imagens, movimentos de câmera, luzes e cores até então nunca feitos, ou feitos apenas em filmes mais abstratos de pouca circulação. O objetivo de tais elementos seria o de ilustrar o ciúme possessivo de um empresário hoteleiro por sua jovem mulher, mas o resultado informa muito mais sobre experiências abstratas um pouco anteriores ao psicodelismo do final dos anos 1960 e sobre a "viagem" formal rigorosa que envolveu boa parte da equipe.

O projeto não deu certo por várias razões que o filme explica, mas os testes e os copiões que restaram nos deixam entrever um belo filme e a paixão evidente do diretor pela imagem de Romy Schneider, espetacular em seus 26 anos.

Algo que deve ser lembrado é que, ainda que não pelas mãos de Clouzot, o roteiro de "L´Enfer" foi filmado: por Claude Chabrol, outro grande cineasta francês, em 1994 (no Brasil, o filme foi chamado de "Ciúme - O inferno do amor possessivo"). No entanto, isso não muda nada sobre o mistério em torno do filme original de Clouzot, experiência extrema de um cineasta e de uma equipe que se arriscaram na produção de imagens que agora irão alimentar os sonhos dos cinéfilos que puderem assistir a esse documentário. Imperdível.

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