Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marcelo Gomes e Karim Ainouz
Elenco: Irandhir Santos.
Duração: 71 min.
Estréia: 07/05/2010
Ano: 2009


Como se fosse a gênese do cinema


Autor: Cid Nader

Havia ouvido muitos comentários sobre Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo antes de vê-lo: uns que o colocavam nas alturas e outros que o tratavam com um filme “afetado”. Gostaria de ler mais sobre os que notaram afetação, saber aonde, perceber se não fui cooptado por ela e se me deixei simples e bobamente enganar. Antes de qualquer outra coisa, vale lembrar que senti demais uma mistura de estilos envolvida na direção do filme (isso para evitar que, em festa de homenagem a Ainouz, Marcelo seja relegado e esquecido como um dos realizadores, já que vi o filme na “Mostra de Tiradentes”, onde o homenageado principal era justamente Karim), e que a singeleza de Karim do “O Céu de Suely” esteve presente e em forte comunhão com a singeleza e delicadeza no modo de observar de Marcelo Gomes, do “Cinema, Aspirinas e Urubus”. Portanto, o que vi, foi um filme de óbvia co-direção. E um filme que vai à busca – e encontra, por sinal – da formação original, da criação, do cinema.

A “história” intromete na estrada um geólogo de 35 anos, José Renato (que aparece somente sob a narração em off de Irandhir Santos, sem representação física palpável, o que já empresta um fato interessante à proposta), que sai pelo nordeste numa viagem programada para ser concretizada em 30 dias, onde fará pesquisa de terrenos para que um futuro canal atravesse região extremamente árida. O mote principal, esse condutor de uma trama a ser compreendida num primeiro estágio, no fundo, acaba embrenhando verdadeiramente o espectador na ideia inicial da formação do cinema. O filme se nutre, por sua veia principal, de imagens. Imagens captadas pelo personagem, mas que, na realidade, são idealização evidente dos diretores – nordestinos e conhecedores de suas paragens, de suas paisagens, e de seus tipos humanos -, que com seus olhares apurados e suas escolhas de suporte (imaginei perceber película, super 8, HD), criaram momentos de extrema granulação, ao mesmo tempo em que imaginaram o sol ao fundo, se pondo, como um contra-ponto à falta de luminosidade das tomadas granuladas, e como a maior verdade constante na região: por vários momentos da estrada (o filme é um road-movie, também), um “sol esticado” completa a faixa inferior como um risco vertical a não ser jamais imperceptível.

O que era o cinema no momento de sua criação senão a captação e exibição apoteótica a assustados espectadores de imagens? No filme, elas são um quinhão inicial importantíssimo – com resultados que vão, além dos da granulação, à poesia interior de rochas e suas cores, ou das flores da amada de José Renato e suas cores, com alguns resultados de forte impacto, e nada gratuitos.

O que foi o cinema na sua continuação próxima, senão a captação da imagem de pessoas, seus movimentos no seu cotidiano, nas suas funções, no seu dia-a-dia – uma tentativa antropológica de relatar a lugares até então distantes coisas jamais vistas. Karim e Marcelo, a partir de um certo momento, a partir de um certo esgotamento em mostrar imagens de estrada, natureza, bichos, redirecionam suas lentes na direção das pessoas e dos tipos que constituem uma formação social. E em meio a esse novo processo na formação do cinema, eles dão o terceiro pulo: “criam” a atuação, com história, com ficção.

Nesse “terceiro” instante do filme, ganha força a narração do personagem, se fala mais de sua vida, de seu amor, e as pessoas reais passam a transitar na frente das lentes como personagens manipuláveis: as prostitutas de beira de estrada, uma família observada daqui, confeccionadores de colchões dali, e outros mais, passam a “fazer parte” do texto – mesmo sem atuar verdadeiramente na maior parte das alusões, e com interpretações reais em poucos instantes. O filme ganha aura de ficção, mesmo sem abandonar sua explícita intenção observacional e experimental. Pensar em afetação ou vazio na proposta é difícil de compreender – ao menos para mim. Há a entrega sensível e sincera aos caminhos, à estrada. Há mais: há a não acomodação da captação e simplista “irradiação” das imagens belas por si só e pelas opções de suporte. E concretiza-se uma viagem – muito movida pelo sensorial, sim – de revelação da gênese cinematográfica.

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A imagem sensorial