Tudo Pode Dar Certo:


Fonte: [+] [-]
Original: Whatever Works
País: EUA/França
Direção: Woody Allen
Elenco: Larry David, Adam Brooks, Lyle Kanouse.
Duração: 90 min.
Estréia: 30/04/2010
Ano: 2009


Tudo poderia dar mais certo. Mesmo assim, vale.


Autor: Cid Nader

Por um bom trecho desse trabalho de regresso de Woody Allen a Nova Iorque - de volta ao cinema ianque -, ri-se demais, embarca-se demais no ritmo “azedo” e velozmente ranzinza de Boris Yellnikoff (pela interpretação de Larry David), retorna-se a um modelo muito reconhecido e de forte proximidade a uma síntese das marcas autorais do diretor, enfim, fica parecendo que se está voltando, juntamente com o diretor, aos primórdios da carreira dele. Conforme o filme avança, passa-se a notar que não somente o fato do próprio Allen não estar interpretando o estereótipo que ele criou como mistura do que ele sempre vendeu como traços de seu modo de ser (mistura que rendeu tipos absolutamente reconhecíveis e que, sabe-se, nem são tão próximos das principais características dele como, civil) é um fator um tanto estranho ao pretenso resgate que imaginamos presenciar sob os primeiros impactos do filme – sim, porque ele até tem declinado oportunidades de atuação em favor de outros atores em alguns de seus filmes, mas não de forma tão evidente à concedida a Larry David, como é o casso dessa oportunidade -: percebe-se, também, que esses primeiros impactos passam a cansar pela repetição, pelo excesso, por um indisfarçado adernamento em direção a acomodações, que são tanto de ordem narrativa, quanto no modelo comportamental dos tipos que habitam a trama.

Yellnikoff é um velho de origem judia rabugento e culto, com ideias bastante concretas sobre a vida e sobre modos comuns de comportamento no dia-a-dia, que diz não pretender realmente mudar mais de estilo, que se contenta com as conversas com os amigos mais próximos em mesas de pequenos cafés, que descarta as coisas de origem divina tão sistematicamente quanto a ciência preconiza, tanto quanto deixa que transpareçam traços sobrados de criação religiosa. Na realidade, Yellnikoff seria o típico personagem “Alleninano”, já mais velho, menos atrapalhado (trabalha num modo de velocidade mais lento, afinal), mais descrente, mais ressabiado: Woody perfez o estereótipo, adaptado ao avançar inexorável do tempo. A ideia é uma grande sacada inicialmente, principalmente para quem conhece sua obra: compra-se-a e pensa-se que irá ter vigor até o final. Mas – e talvez aí resida o principal destrunfo do filme – o filme sucumbe a algumas armadilhas que serão colocadas no caminho do velho ranzinza (entre elas a delicada e cativante Mellodie St. Ann Celestine – Evan Rachel Wood), e Tudo Pode Dar Certo passa a tentar caminhos de desfechos lógicos, para situações e personagens que não nasceram comuns.

Tanto quanto Woody imagina um fato estranho à narrativa – Boris Yellnikoff fala diretamente à câmera para criar um outro espaço de comunicação – como um modo de composição nonsénse adequado ao que imagina estar narrando na tela, percebe-se que um certo fôlego ou ousadia acabam em freadas bruscas, de ritmo, de aspectos comportamentais, de certezas para onde encaminhar tanto excesso de imaginação que abriu esse retorno à cidade natal. Não que o filme seja ruim: se quem assistir estiver predisposto a gostar integralmente não abandonar tal pré-disposição, não haverá do que reclamar. Como disse no início, pode-se rir muito (até porque é trabalho de retorno às mais variadas de suas origens, e o fato traz um tanto pouco da felicidade, ao espectador, por sentir novamente que ele caminhou por terrenos conehcidos). Porém, para quem quereria trabalho completo, o drama se situa estranhamente numa falta de continuidade, na falta de arrojo em manter firme e corajosamente as idiossincrasias de cada tipo estranho que entra na tela e descobre seu outro lado, sem que isso resultasse em acomodação na formação do caráter desses tipos. Para toda a inventividade narrativa tentada pelo diretor, parece que restou um contraponto débil, que seria a compreensão superficial das características de cada personagem; tipos que poderiam representar seres mais importantes se fossem concluídos com mais vigor.

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