Homem de Ferro 2:


Fonte: [+] [-]
Original: Iron Man 2
País: EUA
Direção: Jon Favreau
Elenco: Robert Downey Jr., Don Cheadle e Samuel L. Jackson.
Duração: 124 min.
Estréia: 30/04/2010
Ano: 2010


Boa diversão. Bem boa.


Autor: Cid Nader

Até que ponto é necessário que os tipos da Marvel transportados para o cinema sejam retrabalhados para que suas personalidades passem a ter valorização tão importante quanto as do momentos de seus surgimentos lá na concepção gráfica original? Sim, porque por um bom período, a maior parte dos personagens da grande Marvel tiveram seus traços de personalidade (originalmente bem delineados lá nas revistinhas de décadas atrás) característicos acobertados nas produções televisivas e nas primeiras tentativas de remodelá-los para o cinema. Mas voltando à questão: para mim, o fato de um amontoado de filmes recentes terem retratado com visão adulta muitos dos personagens de quadrinhos sob prismas mais “adultos”, digamos assim, sem deixar que a contemplação e análise fizessem dos filmes coisas lentas e sem interesse por falta de dinamismo ou aventura (lembro do Hulk do Ang Lee, dos Homens Aranha de Sam Raimi, ou dos X Men – além do grande último Super-Homem – de Brian Singer), seria razão suficiente para que qualquer outra obra do gênero que abdicasse disso em favor somente da forma e velocidade passasse a merecer o lixo, sob minha ótica e meu gosto particular.

Bem, O Homem de Ferro já sofre, de cara, prejuízo quando posto ao lado da maioria dos personagens de HQ com propensões sobre-humanas. Nunca foi daqueles mais queridos ou entendidos, nunca foi alvo de discussões mais acaloradas entre os fãs clubes, nunca foi conhecido com razoabilidade pelo público meio leigo no assunto, e nem era prioridade dos grandes estúdios cinematográficos que passaram a lucrar quando perceberam que diretores bons tinham interesse no retrabalho de algumas das figuras mais mitológicas do panteão. Feito o bem bom “Homem de Ferro 1”, nada como uma boa continuação: e eis que Jon Favreau retorna de modo contundente com Homem de Ferro 2.

Quando iniciei o texto questionando sobre a necessidade de pormenorização dos detalhes das personalidades dos personagens para que bons filmes continuassem a surgir, é justamente porque Favreau parece dar um pouco mais de razão de ser à forma e ao dinamismo estético nessa sua recriação do que os outros fizeram a seu tempo. Não que o diretor tenha abandonado no vazio as tentativas de compreensão e reconhecimento mais interno da figura. Não. A diferença básica parece consistir em que, no caso, ele tenha delegado um bocado dessa função de formação do caráter fílmico da figura ao ator que o protagoniza: não dá para imaginar o Homem de Ferro em carne e osso na tela interpretado por outro alguém que não Robert Downey Jr. “Herói” de caráter falho – todos os outros citados acima também são -, no caso, existe o sarcasmo e o narcisismo operando a faixa de visibilidade mais notável, quando o observamos. Industrial bilionário, de família ligada à grana, Tony Stark (nas horas vagas, Homem de Ferro) é uma mistura de “bon vivant” espertamente ligado à mídia para a auto-promoção. Robert Downey parce estar em seu mundo enquanto vai vivendo o personagem – há uma facilidade muito própria dele em criar seres de tal estirpe, restando a sensação de que Favreau, sabendo disso, tenha sido espeto o suficiente para dedicar-se, ao “modo veloz da produção”.

Daí, fica bem fácil constar que o filme tenha um bocado de sua intenção de atração voltada a seu dinamismo. Mesmo com o sarcasmo destilado a cada momento por Stark contra seus desafetos, ou com o narcisismo adornando um montante incontável de momentos – quando ele faz questão de aproveitar a fama de herói que “pacificou” a Terra, ou quando tenta seduzir qualquer mulher bonita que passe à sua frente -; mesmo enquanto fica nítido que ele sofre fisicamente pela opção em tornar-se tal herói de forte componente químico em sua formação corpórea, ou mesmo quando ganha a companhia do pra lá de caricato Mickey Rourke (com uma estranha complexidade vingativa emergida da Rússia); enfim, mesmo com tantos componentes humanos tomando seu espaço na produção, o forte do trabalho parece estar mesmo, mesmo, nas questões técnicas de sua confecção.

Jon Favreau é um diretor que não tem bagagem suficientemente sedimentada para que se possamos tentar analisá-lo mais aprofundadamente, mas, no caso do primeiro filme desses dois, onde ocupou bom espaço para a elucidação de razões e apresentação do personagem a quem não o conhecia, ou no caso desse, onde ocupou os melhores espaços com modos de confecção fixidez na narrativa visual, há um acerto evidente de opções, e uma lógica acumulativa. Se no primeiro havia o detalhamento, nesse, há a opção consciente pela ação. E é ação suficiente para não deixar ninguém chateado; ação que não surge do nada, pelo nada, para o nada; mas ação como elemento principal narrativo (e mesmo assim sem excessos, com situações que se resolvem de forma bem mais rápida do que o comum nos que a adotam como o único caminho a ser percorrido). Além do mais, para completar, há uma profusão de personagens bastante bacana – gente que surgiu a mais, que potencializou questões e possibilitou alternativas. Bom – mais que bom – divertimento.

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