Alice no País das Maravilhas 3D:


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Original: Alice in Wonderland
País: EUA
Direção: Tim Burton
Elenco: Johnny Depp, Mia Wasikowska, Helena Bonham Carter e Anne Hathaway.
Duração: 111 min.
Estréia: 23/04/2010
Ano: 2010


Dorothy no País das Maravilhas


Autor: Laura Cánepa

O universo das estórias infantis foi matéria-prima para os filmes de Tim Burton desde seus primeiros curtas-metragens ("Vincent" e "Frankenweenie", produzidos na Disney em 1982), passando pelo primeiro longa ("As aventuras de Pee-Wee", 1985), pela inesquecível animação "O Estranho Mundo de Jack" (1993) até o sucesso recente de "A Fantástica Fábrica de Chocolates" (2005).

Olhando-se em retrospecto não apenas esses filmes, mas a obra completa do diretor, nota-se facilmente não apenas a recorrência do apelo ao público infantil, mas o uso de um imaginário fantástico típico das histórias infantis mesmo em filmes feitos para adolescentes e adultos, como "Edward Mãos de Tesoura" (1990), "Marte Ataca!" (1996) ou "A Noiva Cadáver" (2205), por exemplo.

Por isso, não pareceu estranho, à primeira vista, que Burton fosse escolhido pelos estúdios Disney para dirigir uma versão censura livre de Alice no País das Maravilhas num live-action em 3D. Afinal, a obra do diretor, da mesma maneira que o livro, trafega bem entre públicos de diferentes idades, com o benefício extra do seu marcante estilo visual, que teria muito a ganhar com os novos recursos tecnológicos.

Ocorre que, até agora, os filmes de Tim Burton não costumavam funcionar com o público infantil da mesma forma que os da Pixar ou da Dreamworks, por exemplo. Quando lembramos da recepção de obras como "Pee Wee" ou "O Estranho Mundo de Jack", são marcantes as críticas ao que seria um tratamento "execesivamente adulto" ou horrorífico de alguns temas, fazendo com que, frequentemente, seus filmes infantis acabassem sendo preferidos pelos mais velhos - além de serem censurados, pelo menos nos EUA, para menores de 12 anos.

Com esse histórico em mente, acaba sendo uma surpresa notar que, justamente ao se envolver numa adaptação do clássico de Lewis Carroll, Tim Burton tenha se rendido ao modelo de filme infantil que tem sido praticado hoje por Hollywood: aquele que, mesmo conseguindo atingir ao público adulto, poupa as crianças de maiores incômodos. Para isso, ele contou com o trabalho da experiente roteirista Linda Woolverton (responsável, por exemplo, por transformar "Hamlet" em "O Rei Leão"), que basicamente levou uma Alice adolescente a viver uma versão simplificada das aventuras da Dorothy de "O Mágico de Oz".

Obviamente, a experiência do diretor com a adaptação de seu sombrio universo particular às grandes produções evita que o filme seja tão ingênuo e esquemático quanto o roiteiro parece prever. Mas, considerando-se o quão enigmática e transgressora é a estória original, o resultado é lamentável.

Os fãs de Burton provavelmente conseguirão se divertir procurando suas "marcas" visuais características (galhos retorcidos, esculturas de arbustos, árvores mortas com troncos furados, portões expressionisticamente retorcidos, moinhos incendiados etc), além de conferir mais uma reunião com seus parceiros constantes: o compositor Danny Elfman e os atores Johnny Depp e Helena Bonhan-Carter, que, por incrível que pareça, continuam funcionando muito bem juntos.

Também são marcantes o figurino hype, o uso esteticamente extraordinário do 3D, os personagens criados com enorme cuidado visual, algumas cenas mais fortes (como a do lago das cabeças cortadas) e a previsível simpatia do diretor (e não do roteiro) pelos vilões. Cinéfilos também perceberão a referência do personagem de Depp ao Espantalho encarnado por Michael Jackson numa versão de "O Mágico de Oz" estrelada por Diana Ross e dirigida por Sidney Lumet em 1978: "O Mágico Inesquecível".

Mas esses dados interessantes não absolvem o filme da fraca direção de atores (exceto no caso de Depp e Carter, que se auto-dirigem) e de sua extrema ingenuidade no tratamento da trajetória de uma Alice virando mulher em plena era Vitoriana. O esquematismo e a simplificação das situações vividas pela personagem fora de Wonderland chega a ser constrangedor para quem já passou dos oito anos de idade.

Com certeza, Alice no país das Maravilhas de Tim Burton é um espetáculo visual para ser assistido com deleite. Mas, levando em conta o roteiro e a exigência do estúdio quanto à censura livre, eu ainda vou ficar esperando pela "versão do diretor"...

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