Sonhos Roubados:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sandra Werneck
Elenco: Nanda Costa, Amanda Diniz, Kika Farias, Marieta Severo e Daniel Dantas.
Duração: 91 min.
Estréia: 23/04/2010
Ano: 2010


Um aspecto positivo seria suficiente para desbancar vários outros?


Autor: Cid Nader

Sandra Werneck vai a um dos submundos existentes em Sonhos Roubados com o “aprendizado” obtido em seu documentário “Meninas” – ao menos ela imagina estar atrelando o obtido ali em favor de um retrato ficcional das meninas do subúrbio carioca, aí, com a força marqueteira e de penetração que se pensa ser muito mais completa e de trânsito fácil via caminhos esses caminhos ficcionais (vide o banho que novelas ou filmes com participação de globais dão em qualquer outro tipo de manifestação filmada no país). O drama para quem assiste ao filme com olhar um tantinho mais atento, já começa quando se percebe que por trás de toda a “intenção reveladora”, “intenção desnudadora”, está a base fílmica das imagens quase edulcoradas por trejeitos técnicos que privilegiam uma espécie de facilitação do andamento visual: imagens que abrandam as tensões estéticas reais, para o bem e uma não inquietação desnecessária de estômagos mais sensíveis.

Esse poderia ser um ponto tomado como o único ou mais importante da discussão sobre o filme e seu resultado: seria fácil manter pé firme na questão com o intuito de desclassificar totalmente as potencialidades do filme. Seria covardias tal ato analítico, até porque, Sandra concretizou um trabalho que também sofre de colapsos em outro setores de sua construção (colapsos fortes) e que poderiam fazer com os pré-julgamentos iniciais sobre técnicas e estéticas parecessem alívio dispensável para quem tenta enxergar em filmes e outras manifestações artísticas locais ideais para a discussão de assuntos de forte relevância. Mas há alguns poréns positivos que não me fazem perceber no trabalho somente coisas questionáveis em seu desfavor: consegui perceber algumas virtudes que o situam como algo mais palpável e importante do que um amontoado de outros seus filmes.

A diretora normalmente parece não saber muito bem o que fazer com a ideia de poder falar sério no cinema. É extremamente ligada a um formato que a faz ligada de forma quase indissociável do arquétipo carioca (como cidade física, como corpos, como personalidade), e, mesmo utilizando algo de estética que tenta dourar a periferia retratada aqui, não o faz como modo de elevação do arquétipo ao qual está acostumada. Essa mesma estética, como disse no início, é um dos graves erros do filme, mas não o que mais se esperaria. Dentre os grandes e graves problemas, está a construção didática dos personagens satélites ás três meninas protagonistas principais: o papel do avô interpretado por meio alcoólatra interpretado por Nelson Xavier é carregado de nuances dignas do mais reles dos gibis de avôs – oco, repetitivo, previsível, como uma muleta para a neta e suas aventuras; o de Marieta Severo, como a cabeleireira que toma para si o poder de defensora das virtudes ainda existentes na mais nova das garotas (justamente a de olhos azuis, mais chegada ao que se pensaria como a menos merecedora das maldades impostas pela sociedade), é trôpego e canhestro em sua construção manjada; o do pai afastado da mesma garota, o mecânico protagonizado por Ângelo Antônio, talvez nem merecesse citação, principalmente pela sua aparição final; o u o do bandido presidiário (MV Bill) como o típico negão bom (Freud explicaria fácil sua invenção na trama); para não falar de um padrasto chegado á pedofilia e sua esposa (portanto mãe da agredida) ausente.

Percebe-se que há muito mais males de que sofre o filme de Sandra do que se entenderia com sua propensão ao modo de “filmar bacana” imposto por Walter Carvalho. Daria para falar da inépcia em tratar de temas e região tão bons para serem discutidos a sério pelo cinema ficcional. Daria para citar que as seqüências vão sendo despejadas na tela alternadamente (quase matematicamente divididas) de modo a configurar que o filme estaria bem manejado pro rédeas curtas – o que denota, novamente, o medo de imaginar que público que prefere ficção não consegue e não pode tomar sustos (nem com fórmulas de formatos diferenciados). Enfim, daria para perceber que o filme pode ser muito mais malhado do que somente pelo aspecto.

Porém, novamente voltando a citar que o trabalho tem também suas virtudes, é evidente que a escolha das garotas que compõe o trio central foi de uma felicidade ímpar. Cada uma à sua maneira consegue fazer entender que – apesar de o filme negar isso por outras tentativas – são fruto do mesmo meio e, mesmo pelo fato de ansiarem suas coisas sem perceber que há outras possibilidades para tal que não a da prostituição ou da humilhação, o fazem com características individuais bem definidas e bem postadas. Não há excessos para demonstrar que cada uma age dentro da mesma cumbuca por métodos e intensidade diversos, e isso, juntamente com sua postura física ante as lentes – e pelo cuidado com que essas as observam – aí, até encontrando virtudes no filme via os aspectos estéticos, também -, e seus destinos já pressentidos pelo público não queimam no estômago por um peso único, de mesma toada lamuriosa, ou de mesmos tons de imaginários choros. Por vezes, fica a impressão de mesmo Sandra não confiou tanto no todo imaginado e realizado, deixando brechas para mais verdades nas sutilezas de algumas atitudes do trio. Não é um filme bom da diretora como composição única, mas pode render frutos se soubermos separar e perceber que há vidas e nuances emanado das garotas.

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