Rita Cadillac - A Lady do Povo:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Toni Venturi
Elenco: Documentário
Duração: 77 min.
Estréia: 16/04/2010
Ano: 2007


Se não há empatia com a assuntada, como se faz?


Autor: Cid Nader

Há assuntos que necessitam de empatia particular para se fazerem mais aceitáveis. Uma das funções de um bom documentário consiste em angariar a empatia de quem não se interessado pelo assunto tratado. Documentários de pessoas físicas, normalmente, são os mais acometidos por essa dificuldade/desafio. A figura de Rita Cadilac nunca foi de particular interesse para mim. Nunca imaginei – e pode-se considerar isso como falha minha mesmo – seu tamanho apelo popular como algo de real interesse. Ex-chacrete, ex-atriz de filme pornô, a mulher, Rita de Cássia, se emocionou no palco quando o filme foi anunciado "É Tudo Verdade 2009". Disse que "se sentia por muito mais tempo, na vida, a Rita mulher do que a Rita artista".

Por esse depoimento dela já se pode notar a provável maior chave que o diretor Toni Venturi quis "institucionalizar" como o mote condutor do trabalho. O jeito mais comum de aproximar retratados dos possíveis espectadores não empáticos é a ênfase na vida "civil", na vida particular, de preferência vincando as dificuldades no início da vida, e levando (esse espectador) para dentro da casa da pessoa – se ela ainda mantiver uma vida comum, mais próxima de "todas" as realidades. Há o perigo da aproximação do sensacionalismo, da pieguice, evidentemente, mas notando que essas duas possibilidades também constituem um certo "charme" para um público menos exigente, catequizado pelos noticiários sensacionalistas e novelas de trama barata. Toni acompanha (fisicamente, mostrando sua própria figura na tela) Rita desde o início das filmagens e faz o jogo padrão das revelações de sua história intercaladas com depoimentos, cenas de arquivo e fotos de momentos dela. Inicia mesmo na casa dela nos tempos atuais, e do jeito que as primeiras cenas vão revelando os preparativos de um almoço na cozinha, percebe-se uma pessoa "humilde" mesmo após anos de sucesso. Chave condutora revelada.

Talvez o fato de eu tentar "pensar" pelo diretor e seu "modos operandi" não tenha permitido que a empatia junto ao assunto tivesse ganhado espaço. Tentei perceber o tempo todo o trabalho com o maior rigor possível para evitar cair demais na avaliação particular demais. Observei um esforço danado executado por Venturi no momento da montagem com o objetivo nítido de dinamizar e dar qualidade estética ao material garimpado e filmado (aí, avançando à frente e deixando para trás a chave principal possível de ser usada – e que realmente o foi). Ele consegue alguns momentos bastante exatos: a revelação de fotos de momentos da vida dela é feita através de um jogo de superposição interessante, como se fosse manual, e que utiliza uma espécie de pano fundo que as remetia a determinado momento de datas e complementando um ambiente propositalmente "brega" (notando que esse termo brega, utilizo mais como uma maneira de me referir ao contexto no qual a personagem se criou e de onde foi exportada para o reconhecimento); os momentos da reverência a ela nas prisões são emocionantes porque revelam o sentido de justiça e proteção que pode emanar daqueles que são considerados "bestas", quando defendem quem imagina mereça ser defendido, e a admiração deles por ela se faz bastante evidente; o depoimento autêntico de Chacrinha na TV Cultura também é uma bela peça de garimpagem.

Mas, muitos dos tempos do filme estão definitivamente comprometidos pela não concretização do "angariar" em favor da personagem Rita Cadilac: é over e "intrometida" a cena do casamento; over algumas declarações pessoais e de alguns outros mais próximos quando se referem a ela em diversos momentos da vida; ruim mesmo (e novamente, desnecessariamente intrometido) o encontro com uma irmã; fake as tentativas de divinizá-la em variados momentos profissionais (notando que não me refiro ao fato de se aprovar ou não suas opções, suas escolhas; refiro-me mesmo ao fato da tentativa eterna de "super-heroização" por tais escolhas). A verve de Rita incomoda também: nunca errada, nunca pecadora, nunca humana na essência (sabe, aquela espécie terrestre que acerta e erra também). Fica parecendo chapa branca demais, se bem que aí seja a opção do diretor que não deve ser questionada, somente analisada.

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