As Melhores Coisas do Mundo:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Laís Bodanzky
Elenco: Denise Fraga, Paulo Vilhena, Caio Blat e Francisco Miguez.
Duração: 107 min .
Estréia: 16/04/2010
Ano: 2010


Um dos grandes filmes nacionais dos anos 2000.


Autor: Gabriel Carneiro

Há uma cena no filme, deslocada da narrativa, em que os personagens Mano e Pedro estão dentro da piscina, girando, continuamente. Certamente simboliza a renovação dos irmãos frente aos problemas enfrentados ao longo do filme, mas, mais que isso, referencia o cinema de Laís Bodanzky. Em seus filmes, tudo está a se renovar.

Em “Bicho de Sete Cabeças”, o personagem revolve em torno das drogas e, em “Chega de Saudade”, a renovação está no próprio baile, a cada semana, uma diferente configuração. Se com o último Laís havia feito um dos melhores filmes brasileiros sobre a velhice, com As Melhores Coisas do Mundo faz um dos melhores – se não o melhor – filme brasileiro sobre a juventude.

A renovação de Laís está no seu fazer cinema, nos temas e subtemas que permeiam os filmes, algo meio circular, que está sempre lá, e que de vez em quando volta à superfície. A cineasta, a cada filme, faz algo diferente, como se começasse do zero – não confundir com inexperiência. Está mais madura, mas seus filmes são muito vivos, muito abertos a discussões e reflexões sobre a contemporaneidade brasileira, sem se prender aos clichês do filme sobre a miséria, sobre as mazelas sociais e afins.

As Melhores Coisas do Mundo retrata a vida de adolescentes da classe média, seus problemas, desde a fofoca no blog da colega até a separação da família. Os temas não poderiam ser mais apropriados: a conexão com o mundo através da internet, a forma como se encara a sexualidade, a aceitação na escola, entre outros. Há grandes discussões, sérias, mas que carregam a leveza da trilha musical. Busca conscientizar o jovem, bem como entendê-lo, sem ser didático, não se prendendo a fórmulas fáceis, mesmo que algumas personagens sejam bem estereotipadas. Talvez nesse retrato é que o filme se saia tão bem: os jovens, e as pessoas em geral, são estereotipados, são planos, pelos menos a olhos externos - veste uma máscara e quer tanto nela acreditar, que tornam-se um só.

No filme, também estão todos os delírios juvenis e sua jornada de descobertas. Afinal, quem está mais em constante processo de aprendizagem do que o jovem? Pode não se transformar, mas há sempre novas percepções. Laís Bodanzky filma com muito respeito, sutileza e beleza. O trunfo do filme é falar de temas batidos – mesmo que a realidade brasileira seja diferente, os temas não são -, sem ser emocionalmente manipulador. Nada parece ter esse propósito, fluem espetacularmente. Tudo é muito delicado. A cena dos ovos, tão periogosa, que poderia levar ao pieguismo se resolve muito bem, em parte, porque não há afetações e estardalhaços em sua composição - é uma cena como outra qualquer.

A câmera passeia, sem histeria, entre os alunos, para descobrir uma paixão. É o olhar que busca se encontrar. Pode balançar, mas não treme. A lente é apenas isso, nada mais. Ela não se impõe. O foco, em As Melhores Coisas do Mundo, são seus personagens e suas histórias - o jovem se conhecendo, tentando descobrir se aqueles são os mehores dias de sua vida. Não é nostalgia, é curiosidade. São perguntas banais que nos fazemos todos os dias. E tudo continua caminhando, a história vai sendo contada, sendo reescrita. É um cinema comprometido com a narrativa - e isso é sempre um ponto a se admirar. Quais são as melhores coisas do mundo?

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