Os famosos e os duendes da morte:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Esmir Filho
Elenco: Henrique Larré, Ismael Caneppele, Tuane Eggers e Samuel Reginatto.
Duração: 103 min.
Estréia: 02/04/2010
Ano: 2009


Esmir fala aos seus.


Autor: Cid Nader

Falar bem desse primeiro longa-metragem do jovem diretor Esmir Filho, a princípio, parece que tornará o ato coisa de resistência, e necessitará preparação extra para a retaliação de seus detratores. Sinceramente, não sei o a razão da ruindade extrema atribuida pela cabeça de quem já havia o visto e insistia na não necessidade de mais vistas. Imagino, até, alguns argumentos, como a desfiliação evidente das hordas da cinematografia nacional, a aproximação (seria um equívoco grande se fosse uma das razões atribuídas) a um modelo de cinema norte-americano independente, ou excessos de manipulação estética, com pouco discurso conclusivo e direto.

Não sei na realidade e divago ao imaginar coisas das cabeças dos outros. Sei que tenho minhas pinimbas com o pregresso do diretor. Acho execrável seu grande sucesso internético, “Tapa na Pantera”; acho exercício meio pífio e juvenilmente vazio, seu premiado internacionalmente, “Alguma Coisa Assim”; mas já gosto muito das tentativas de buscas de texturas em seu já bem bom, “Saliva” – falamos do mundo dos curtas-metragens, evidentemente. Percebi em “Saliva” um crescimento espantoso e passei a querer entendê-lo como diretor em progresso – valendo notar que ele tem ainda somente 26 ou 27 anos de idade.

Na correria, em meio a uma Mostra (o filme foi visto no Festival de Tiradentes), fica difícil avançar demais e detalhar muito qualquer crítica que seja, mas, de cara, creio ter percebido no quesito técnica~estética desse Os Famosos e os Duendes da Morte uma tentativa de continuidade nas experimentações com texturas. Há um avanço no caso: desde o início percebe-se que as tentativas de criação similarizam efeitos plásticos do curta anterior, mas isso é só um início, que avança em modelos e “materiais”, quando se passa a utilizar o meio ambiente da região das serras gaúchas no inverno – fato que faz com que o filme não pareça coisa do Brasil idealizado como a terra de sol e da miséria (elemento de preferência entre muitos) – para criar nuances de quase toque. E há um evidente avanço no caso das texturas quando se percebe que o filme – principalmente em seu início – tenta ir além do normal ao explorar “texturas auditivas”.

Mas há muito mais no filme. Há o clima de desolação causado em regiões de extrema-beleza e evidente distanciamento da miséria, mas de pouca opção a quantidades de jovens que anseiam outras paragens e ideais, principalmente num mundo movido a Internet. Há mistério e, um qualificado modo de atiçar o espectador – Esmir revela muito aos poucos e por meio de imagens e pequenos resgates memoriais uma trama que não chega a ser o mote indispensável do trabalho. Há as atuações que são sem nenhuma falha muito boas, e que caracterizam um insuspeito jeito de ser das pessoas de lá, algo que se reforça com a introdução dos signos alemães colonizadores da região. Bob Dylan como ídolo de um garoto inconformado e que procura várias respostas – já não bastando as típicas da idade – é um ponto de ligação ao mundo muito forte e opção bastante justa e acertada. A paisagem, a exploração dela, o frio, a ponte e seu imã maldito, são quesitos necessários e de forte importância na complementação. O único momento mais fraco – de um modo mais evidente – reside justamente num momento em que se faz necessário o abandono das liberdades no modo de filmar, para botar de forma reta uma explicação de suicídio: o que resultou uma sequência detalhada demais, explicada demais por imagens de desconsolo, com sapatos largados na ponte, carta falando de ausência...

Tal falha talvez evidencie uma dificuldade de Esmir em trabalho por parâmetros mais comuns da arte, mas é caso que não pode se concluir como certo num filme que abdica disso. Tal falha, talvez não constitua “falha” mesmo, e venha como reforço evidente de uma certa autoralidade dele (afora as questões de pesquisas e experimentações estéticas) por estar sempre, e ainda, retratando o mundo do modo jovem de ser em tempos de comunicação instantânea entre diversas paragens da Terra. Tanta celeuma propalada só me faz querer rever o filme, não renunciá-lo. E, no momento, ainda me fica a sensação um bom retrogosto.


P.S.: leiam na coluna Grande Angular do site a entrevista de Esmir concedida a Gabriel Carneiro.

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