QUERIDA WENDY:


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Original: Dear Wendy
País: Inglaterra/Dinamarca/Holanda/França
Direção: Thomas Vinterberg
Elenco: Jamie Bell, Bill Pullman, Michael Angarano, Danso Gordon, Novella Nelson, Chris Owen, Alison Pill e Mark Webber.
Duração: 100
Estréia: 2/12/2005
Ano: 2005


O avassalador "Querida Wendy"


Autor: Érico Fuks

Este foi um dos melhores filmes que vi na Mostra. Há muito de psicologia sem cair em psicologismos maniqueístas fáceis. Vinterberg se recuperou de “Dogma do Amor” e provou ser muito mais dialético do que uma simples contagem em prol ou contra o armamentismo em época de referendo. Essa relativização ao extremo, trabalhada de maneira tão minuciosa quanto sarcástica, firma e destrói argumentos na mesma proporção e com a mesma intensidade. Narrada em off como se estivesse lendo uma carta de amor na voz de Dick (Jamie Bell), o filme segue um ritmo lento que não deixa dúvidas de se tratar de uma epopéia shakesperiana. Ele é um jovem solitário que vive numa cidadezinha triste e desolada, Estherslope. Filho de um mineiro de carvão, recusa-se a seguir o comportamento machão da maioria, tornando-se pacifista. Ainda assim, fica estranhamente fascinado quando encontra, por acaso, um pequeno revólver, batizado por ele com um nome de mulher, ‘Wendy’. Com a ajuda de um amigo, convence outros jovens marginalizados da cidade a formar um clube secreto chamado “Os Dandies”, cuja filosofia une o pacifismo e a paixão pelas armas.

O diretor tem a mão fria pra explorar com habilidade as fraquezas e os silêncios de uma cidadezinha qualquer no meio do nada. Esse tom ao mesmo tempo misterioso e onisciente deixa a coisa mais sádica. Há um “antes” onde tudo é delimitado. O xerife diz que, pra saber quem é cidadão de bem, basta que este sujeito aprecie os muffins da dona da padaria. É Dick quem determina taxativamente quem são os fracassados do vilarejo a ser recuperados: um aleijado, uma feiosinha cheirando a mofo de brechó, entre outros.

Com o grupo reunido, o filme trabalha a potencialização dessas pessoas que são, antes de tudo, um forte. A maneira sofisticada e teatralizada meio “Sociedade dos Poetas Mortos” contribui para a ironia cáustica. Mas há também outras pinceladas de referências, sem que esse filme se transforme num amontoado de chupinhações. A formação de uma nação através de um núcleo dundee é “Gangues de Nova York” puro. Há também um pouco de Romero, principalmente no discurso da regra básica do grupo, que determina que as armas não devem ser usadas durante o dia pra não serem acordadas (o nome do grupo das músicas da trilha sonora é Zombies). E o mapeamento da cidade, traço básico de “Dogville”, não deixa dúvidas sobre o nome do roteirista deste trabalho avassalador.
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