Tulpan:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Ale/Suí/Cazaq/Rús/Pol.
Direção: Sergey Dvortsevoy
Elenco: Askhat Kuchinchirekov, Samal Yeslyamova e Ondasyn Besikbasov.
Duração: 100 min.
Estréia: 26/03/2010
Ano: 2008


Querendo crer na sinceridade da proposta...


Autor: Cid Nader

Vou iniciar esse textinho com um questionamento sobre "pitoresquices": a enorme quantidade de países europeus envolvidos oficialmente na confecção de "Tulpan" poderia remeter o filme a obra pensada e idealizada como coisa em busca do lúdico que povoa os sonhos de povos que já perderam muito a capacidade de sonhar e partem em busca de regiões que parecem quase nem pertencer mais a esse nosso planeta ressecado e homogeneizado "animamente"? Se sim, Sergey Dvortsevoy inscreve-se ao lado de um monte de diretores que povoaram as telas com produções pra turista, sem a necessária "alma" que deveria ser um dos principais motes de confecção sobre seus sítios, e digno de execração indiscriminada que costuma brotar de mentes mais rígidas e exigentes quanto a pureza de intenções. Se não, se o fato desses países estarem par-a-par com a produção for simplesmente pela necessidade óbvia de dinheiro (ok), distribuição e simpatia abnegada pelo tema (acredito que exista isso ainda, sim), se Sergey não se rendeu demais a exigências vis e o que colocou na tela reflete de alguma maneira algo particular ao distante Cazaquistão (se bem que sou daqueles que acredita que a obra não necessita - até gosto quando se distancia fortemente – apego à realidade parta se fazer importante), então "Tulpan" é um dos grandes "filmes étnicos" (digamos assim) dos últimos tempos.

Como gostei bastante do filme – vendo-o com olhos desarmados quanto ao seu envolvimento com a micro-Europa representada na ficha técnica – saí da sessão do filme com a sensação do cinéfilo que surgia há muitos anos, criado nas hostes da Mostra de São Paulo, e que descobria via ela um mundo mais amplo e desconhecido por "vias oficiais" de revelação via arte. Os "filmes étnicos" (digamos, assim), sempre constituíram fator forte de atração para pessoas um pouco mais sensíveis e refratadas a obras de puro padrão hollywoodiano (se bem que nada tenha contra obras de lá e modo catequizado ou catequista, e se bem que eles mesmo tenham feito grande parte de seus sucessos e de sua grana via confecção particular de enxergar o resto do planta – uma outra vertente de observação étnica), e fica fácil entender o sucesso que "Tulpan" vem fazendo mundo e grandes festivais afora.

Agora, fica mais fácil ainda compreender seu sucesso por conta da qualidade superior do filme quando comparado a trabalhos da mesma "estirpe". A história do jovem Asa em busca de um casamento (a escolhida seria a "bela" Tulpan) numa remota região de um país já bastante remoto no imaginário ocidental, com tradições ancestrais misturadas a atitudes humanas de verdade (indecisões, falácias, desespero por um casamento), e um modo muito próximo de observação executado pelas lentes já inicia como diferencial em relação a outras. Quanto à câmera e suas lentes, o diretor busca o tempo todo a proximidade com os personagens do filme, numa atitude de cinema moderno que confere mais veracidade a situações e reações: e um ponto positivo que constrói uma das vertentes possíveis do filme, é que essa observação dos personagens coloca em quase similaridade de importância, os animais que circulam livremente na tela e os humanos – o filme revela a importância de cada um num "eco-sistema" com jeito de "atraso" ao mundo moderno; as câmeras e as lentes também executam planos seqüências e fazem a costura de quase todo o filme com poucas "ataduras", além de fazer com que as situações tenham realmente jeito de mais verdade do de impostação cênica, como faz crer s cena impactante do nascimento de um animal - coisas necessárias em "filmes étnicos" (digamos assim).

A qualidade superior do filme – acreditando-se em sua sinceridade – ganha pontos também pelo tom de humor adotado, que faz de Asa um sujeito muito desesperado pelo casamento e realizando impropriedades na tentativa, ao lado de um amigo meio estranho no ninho; ou quando o humor é apostado nas atitudes sinceras do mais jovem filho do casal estabelecido na história, uma criancinha sapeca e verdadeira; fora alguns humores pontuais como o que coloca em cena um "veterinário", um camelo bebê e sua mãe que os persegue por quilômetros e quilômetros, chorando e berrando. O filme não excetua o humor e isso é um sinal positivo de sinceridade – pessoas "sensíveis" demais, por vezes buscam a emotividade extrema como único modo de ser possível nesse tipo de trabalho. E pra completar os pontos positivos,vale lembra que o diretor constrói uma busca de Asa ao amadurecimento: que se estende além da idéia do casamento, e culmina com aquela cena do parto de um animal (onde ele finalmente se encontra e cresce). Creio na sinceridade da proposta, e sendo assim, o que temos é um belíssimo filme.

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