Diário Perdido:


Fonte: [+] [-]
Original: Mères Et FilLes
País: França/Canadá
Direção: Julie Lopes-Curval
Elenco: Catherine Deneuve, Marina Hands, Marie-Josée Croze, Michel Duchaussoy.
Duração: 105 min.
Estréia: 26/03/2010
Ano: 2009


Diretora aborda tema universal com sensibilidade madura


Autor: Fernado Oriente

Um dos grandes méritos que um filme pode ter é saber utilizar situações comuns e temas universais e, a partir daí, extrair dramaticidade e conteúdo. A diretora Julie Lopes-Curval consegue esse feito em Diário Perdido, um longa em que os dramas atingem níveis de complexidade satisfatórios e as tensões entre os personagens, bem como a relação entre o passado e o presente, são exploradas de forma concisa. As possibilidades despertadas pelos conflitos entre os tipos, suas mágoas e decepções, bem como suas expectativas frustradas são conduzidas com muita sensibilidade por Julie, que aborda os sentimentos de forma madura e evita ao máximo os sentimentalismos e a pieguice. Tudo isso é potencializado pela segurança que a diretora impõe ao filme, utilizando uma mise-en-scéne objetiva para ampliar as discussões que levanta.

Diário Perdido mostra a relação entre três mulheres, composta pelas tensões do presente e as dúvidas e mágoas do passado. Audrey volta para a cidade costeira na França onde cresceu e vivem seu pai e sua mãe, Martine. Lá ela encontra o antigo diário de sua avó, que abandonou o marido e os filhos há mais de 50 anos. As cenas pontuam o quanto a relação entre Audrey e Martine é frágil e os rancores e frustrações que uma impõe sobre a outra ganham tons densos pela construção das situações e pela classe com que a cineasta tinge as passagens e os diálogos com uma firmeza sensorial carregada de significações. A presença da avó, sentida na curiosidade com que Audrey tenta reconstruir sua história e na maneira como a fuga da mãe impôs sofrimento e rancor na alma de Martine são catalisadores da relação entre mãe e filha. Sentimos o quanto o trauma de ter sido abandonada é imperativo na maneira como Martine criou a filha e na forma como transformou-se em uma pessoa amarga, fazendo da frieza e do distanciamento o principal elemento de suas relações pessoais. Mas o desaparecimento da avó tem outro efeito sobre Audrey, ela sente que talvez seja os mistérios desse sumiço os motivos de muitas atitudes que desaprova em relação à sua mãe e que vê se manifestarem em sua própria postura em relação aos outros e a si mesma.

Esse emaranhado de explicações não dadas e motivos não esclarecidos são a gênese do sentimento de culpa que atinge as mulheres do filme. A avó sente-se culpada por não aceitar o papel de submissão que lhe é imposto pelo marido e sofre ao ter que decidir entre sua própria felicidade e a obrigação de viver ao lado dos filhos que ama. Martine sente culpa pela fuga da mãe e por sua incapacidade de expressar mais o amor que sente pela filha e Audrey, que carrega o voluntarismo e a força das outras, sente-se culpada por não conseguir se comunicar com aqueles de quem gosta e incapaz de assumir seus sentimentos em meio ao sucesso profissional que usa para esconder suas insuficiências afetivas. Julie Lopes-Curval projeta e funde as tensões das três mulheres, une suas personagens nos mesmos tormentos e divide as sensações e as dores de suas mulheres na mesma proporção que as aproxima em suas essências.

Todos os personagens em Diário Perdido são carregados de particularidades, as muitas texturas que compõe seus tipos são exploradas com talento por Julie, que usa essa complexidade no caráter de seus tipos para compor diálogos cheios de significação e de não-ditos que realçam o enredamento dos dramas que eles vivem. Temos no longa uma abordagem adulta e sofisticada de temas universais como o peso, as obrigações e as dúvidas sobre o que é ser mãe, além do paroxismo entre admiração e ressentimento com que os filhos vêem seus pais. A diretora explora com sensibilidade os questionamentos e as fraquezas que existem na forma como uma mulher assiste seus filhos e como o amor materno pode ser agredido pelas tensas relações sociais que se impõem as mulheres em uma sociedade como a nossa. As propensões a culpar os pais e a projetar neles as próprias limitações também estão presentes na dramaticidade do filme. A personagem de Martine, seu sucesso profissional e sua aparente força de personalidade não são suficientes para preencher a dor da ausência da mãe. Ela é, ao mesmo tempo, grata pela coragem de se auto-determinar que aprendeu dela e carente das manifestações de afeto mais singelas que esperava ter dessa mulher. Essa dubiedade ela transmitiu para Audrey, a filha a quem ama e se orgulha, mas que sente nela a mesma incapacidade de se expressar que a mantém ceifada de seus sentimentos mais básicos.

A solução para o desaparecimento da avó pode não ser a mais interessante e acaba por diluir a força que existe nos dramas entre essas três mulheres, mas serve, por outro lado, para jogar luz na forma como mesmo na França e todo seu desenvolvimento do indivíduo e com toda a autodeterminação conquistada pelas mulheres, as amarras do machismo e do reacionarismo familiar ainda fazem suas vítimas. Diário Perdido é um filme simples em suas pretensões, embora atinja com profundidade temas caros a todos que vivem em uma sociedade com as normas e as limitações que existem por aí. Julie Lopes-Curval tinge seu longa com a mais sincera expressão de sua feminilidade e toca pontos sensíveis que podem escapar a alguns espectadores homens, mas que dialogam diretamente com aspectos muito maiores do que as diferenças de gênero.

Leia também: