Um Sonho Possível:


Fonte: [+] [-]
Original: The Blind Side
País: EUA
Direção: John Lee Hancock
Elenco: Sandra Bullock, Tim McGraw, Kathy Bates, Quinton Aaron.
Duração: 128 min.
Estréia: 19/03/2010
Ano: 2009


Um filme americano


Autor: Cid Nader

Tenho iniciado alguns textos abordando várias questões estruturais que movimentam o grosso do cinema note-americano - acho que ando vendo filmes da grande indústria demais. O interessante é que quanto mais filmes de lá vejo, menos indignado fico com as aberrações que se repetem, e mais compreendo um trecho forte do comportamento da sociedade de lá - sim, sei que não é monolítica e que tem bastante variações (talvez até a mais diversa - ao menos a que mais criou contestações e modificou comportamentos no último século) -: aquele que refere ao valor da família como único elemento suficientemente forte para defender a unidade pátria. Creio cada vez mais que, mesmo entre contestadores e revolucionários, essa questão da família e da grande índole necessária para que se mantenham prumos está bastante interiorizada nas mentes dos de lá, e não é mal vista ou mal recebida na hora de alguns "manda ver".

Um Sonho Possível já denota pelo título do que tratará - redenção e novas oportunidades são apêndices que fortificam com ramos fortes o grande tronco do núcleo do lar -, e se apresenta descarada e desavergonhadamente como um filme que falará ao âmago familiar, à virtude "inquestionável" de uma nação que se imagina a mais justa, aos que crêem piamente nas chances e no ser humano. Os ianques tratam as questões humanas em seus filmes, também, como se imagina ser preferência dos franceses (que adoram a ideia, mas carregam sentimentos ex-colonizadores de difícil ocultação - são, invariavelmente, paternalistas, acima de humanistas), ou de trechos de obras alemãs (creio muito mais na maneira dos germânicos de encarar assuntos ligados ao tema - povo que não faz alarde ou marketing e tenta agir mais atentamente, de modo menos "caridosamente superior"): o que incomoda no caso deles (os ianques) é que muito disso vem atrelado a motivações financeiras de alto grau de necessidade arrecadador imposto pela tal grande indústria, e o fazem priorizando os humanos que se submetam às suas crenças de que tudo deverá girar em torno (ou dentro) de seus lares "santificados" pela justiça.

Vindo mais ao chão e colocando de lado um pouco as motivações e ligações a outras cinematografias ou comportamentos sociais, o filme dirigido por John Lee Hancock (que tem grandes títulos em sua carreira como roteirista, como "Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal" ou "Um Mundo Perfeito", ambos dirigidos por Clint Eastwood) não inventa ou tenta enganar quem quer que seja desde seu início. Isto é: se apresenta desde os primeiros momentos como um filme chapa branca, que contará a história de um negro abandonado por conta da marginalidade paralela ao seu crescimento, e que virá a se tornar um dos grandes jogadores de futebol americano (falamos de Michael Oher, interpretado pelo enorme Quinton Aaron) por conta da ajuda imprescindível (e sem nehuma outra intenção que não a de ser uma legítima americana justa e líder de um lar que deverá ser sempre exemplar) de uma rica senhora, Anne Tuohy (Sandra Bullock). Ele ganhará um lar e a chance de passar a fazer parte da sociedade "normadora e indispensável", numa nação de apego a núcleos bem geridos.

Vindo ao chão, o diretor não inventou demais, seguiu cartilhas, conduziu tudo sob parâmetros comuns e "quadrados", sem nunca demonstrar querer fazer algo diferente disso, Ele pegou uma história que é americana ao extremo, e percebeu que não necessitaria transitar por vias mais complexas para contá-la, crente que ela por si só seria suficiente para preencher suas expectativas e anseios (juntamente com as do público potencial e dos donos da grana da indústria). Muito se faz isso no cinema de lá, e muito de porcaria resulta. Nesse caso - não sei se por estar com a mente um tanto acomodada ao estilo deles, ultimamente -, a "honestidade" em não tentar vender um peixe por outro resultou um filme que, mesmo comum, pode ser visto com tranquilidade e com prazer.

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