Criação:


Fonte: [+] [-]
Original: Creation
País: Reino Unido
Direção: Jon Amiel
Elenco: Paul Bettany , Jennifer Connelly , Jeremy Northam , Toby Jones.
Duração: 108n min.
Estréia: 19/03/2010
Ano: 2009


Mais do que se esperaria.


Autor: Cid Nader

Quando se vê alguns assuntos que serão tratados por obras cinematográficas, irresistível manter os pés firmes ante uma reação normal de que ao menos um deles (os pés) queira recuar ante a perspectiva de catástrofe realizada ou besteira imensa, minimamente. No caso de Criação, o temor predecessor ao filme indicava a possibilidade de uma realização desastrada, pitoresca, esdrúxula. Como botar fé num filme que tentaria reduzir a alguns minutos a complexidade de obra tão extensa quanto importante para mudanças de rumos da humanidade como foi a concretizada por Charles Darwin com seu espetacular e mais que decênio-lavorativo "Origem das Espécies" - livro que concluiu após infinidades de tempos e questões pessoais, no qual abordava o evolucionismo das espécies terrestres: o que sugeriria uma possibilidade bem pouco divina na nossa criação.

Mais ainda assustador era imaginar a certeira "romantização" do evento que adviria - que quase consumiu o cientista/explorador/estudioso Darwin - ainda mais sendo o trabalho cinematográfico saído das mãos não tão alvissareiras de um diretor de frágil pregresso como é Jon Amiel. Por outro lado, quão surpreendente (na realidade quase uma regra que se repete) é constatar que baixas expectativas podem resultar num certo "desarmamento crítico" ante fracas obras que serão obrigatoriamente constatadas, levando a resultados surpreendentemente agradáveis. É nesse padrão da baixa expectativa que se encaixa definitivamente o filme e o que resultou dele.

Amiel se deu bem com o trabalho pelo modo de construção escolhido. Não fugiu da possibilidade do "encantamento" (da atração) via as regras imaginadas para tal. Romantiza sim o sofrimento de Charles Darwin ante a possibilidade do ruim enfrentamento com o Deus das religiões cristãs (no caso dele, um cristão casado com uma cristã um bocado mais devota do que ele), e coloca isso como um dos pontos de sustentação do segunda metade do trabalho; intromete na história a dúvida que pode vir a atrapalhar mais do que somente o próprio cientista o futuro de seu lar; também não se esquece dos enfrentamentos científicos e de dúvidas ou cobranças acarretadas pelo fato: afora alguns outros elementos comuns utilizados (daqueles que sempre imagino serão executados) em filmes que falarão ao grande público. Mas como disse, nada como uma construção esperta (nesse caso melhor ainda: contida) para atenuar os possíveis malefícios causados por facilidades der base, o que foi obtido por conta de uma edição que evitou o tempo todo situações de cortes bruscos e suspenses (o filme caminha por vias calmas, que alternam os momentos familiares aos das dúvidas religiosas ou científicas, ou que permitem perceber o sofrimento causado pela perda da filha preferida sem excluí-la ou remetê-la a situações de participante de pesadelos - ela está no filme como fato comum e incentivador -, por exemplo) desnecessários, e que costurou flash-backs à realidade num mesmo tecido.

Talvez, se Criação não tivesse vindo embalado em minha mente por papéis duvidosos eu pudesse encontrar mais razões para explicitar suas fraquezas - e ele tem, também. Mas não creio ser o caso, já que suas virtudes são boas e suficientes para fazer dele uma peça plenamente assistível e apreciável. As atuações são boas (Jeniffer Connelly lindamente cool como sempre, e Paul Bettany na medida correta da caricatura), alguns momentos singelos também (a história da pequena macaquinha um grande exemplo), e tudo isso (juntamente com as opções técnicas de andamento) se faz responsável por um resultado justo.

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