Soul Kitchen:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Alemanha
Direção: Fatih Akin
Elenco: Adam Bousdoukos, Maritz Bleibtreu e Anna Bederke.
Duração: 95 min.
Estréia: 19/03/2010
Ano: 2009


Caricaturas em comédia “teen”


Autor: Fernando Oriente

Fatih Akin é, antes de tudo, um diretor que ainda busca seu material cinematográfico. Em seu melhor trabalho de ficção, o limitado “Contra a Parede”, ele utiliza o clichê do homem desesperado e sem futuro que se lança ladeira abaixo seguindo suas paixões e vivendo de seus excessos. A personagem errática, que vive a margem do mundo, parece ser a figura dramática favorita de Akin e nos surge como o principal elemento político de seus filmes. Essa opção pode ser entendida pela forma como ele, filho de imigrantes turcos, se vê na hierarquia social alemã. Mas o ser político de Fatih Akin sofre de sérias limitações e, embora o diretor flerte com diferentes gêneros, nos chega sempre por meio de caricaturas trôpegas. Seu cinema é uma tentativa tímida de abraçar assuntos relevantes no tenso contexto sócio-político de uma Europa reacionária em sua xenofobia e apavorada com os milhões de imigrantes responsáveis pela mudança étnica no cenário de suas cidades. Essa tensão de preconceito e estupidez não está presente de forma compensatória nas simbologias do diretor.

Soul Kitchen é uma comédia em que figuras periféricas da cidade de Hamburgo: imigrantes, presidiários, golpistas e sonhadores subempregados se relacionam em torno de um restaurante de subúrbio. No início do longa, o Soul Kitchen não passa de uma espelunca suja e praticamente em ruínas onde o proprietário, um jovem de origem grega, tenta sobreviver em meio à dívidas, clientes pouco confiáveis e uma namorada alemã que está de partida para trabalhar na China (um comentário sobre a nova distribuição de forças na economia global?). A chegada de um chef para comandar a cozinha muda radicalmente o lugar. Surge um endereço hype em que o diretor enfia estereótipos do que acredita ser uma “balada cool”. E, com a mudança, somos obrigados a nos deparar com situações prá lá de infantilóides em que intrigas e interesses amorosos se amontoam conduzidos pela tentativa desengonçada de Akin em extrair humor de um universo engessado por clichês. As amarrar criadas por Akin são forçadas e frágeis, o que provoca um resultado superficial em que a carência dramática se torna evidente.

As muletas para essa carência dramática do filme são inúmeras. Temos desde a exagerada marcação dada pela trilha sonora cheia de canções “bacanas” até o constante movimento da câmera, que se esforça em dar agilidade às situações tolas do argumento. Não estão ausentes as pretensões formais de Akin, que apela para distorções com o uso equivocado da grande angular e chega a mudar o registro da paleta de cores para forçar climas em passagens distintas do longa. O gesto dos personagens é outro grave problema de Soul Kitchen. A afetação da simpatia forçada que Akin deseja impor aos seus tipos engessa as possibilidades de humor das cenas e o esforço dos atores em incorporarem tipos simpáticos elimina qualquer probabilidade complexa nas relações interpessoais.

A construção dos personagens e as soluções dadas a eles são a pior parte do filme. A necessidade em acomodar um happy end para seus tipos leva Akin a cometer grosserias dignas de uma comédia teen das mais bobas, como o surgimento do interesse amoroso para o protagonista, a solução romântica e conciliadora para o casal formado pelo irmão presidiário e sua namorada garçonete e o maniqueísmo da “frieza egoísta’ da (ex) namorada alemã rica. Akin chega a explicitar um rancor infantil contra os tipos “genuinamente alemães” que cria, o que fica evidente na punição ao inescrupuloso colega de escola do personagem central.

Essa pegada adolescente do diretor está muito distante da competência do universo pós-puberdade criado por cineastas talentosos como Judd Apatow no ótimo “Ligeiramente Grávidos”. A leveza, a complexidade de texturas e a sinceridade dos tipos e das situações criadas por Apatow não se assemelham em nada a infantilidade com que Fatih Akin tenta enfiar simpatia e leveza aos seus personagens. O que temos em “Soul Kitchen” é uma colcha de retalhos entre um discurso político tímido e carente de coragem e momentos de romantismo piegas e totalmente desprovidos de materialidade fílmica. Não é um filme descontraído o que Akin faz. Seu longa não passa de um acúmulo de caricaturas rasas em meio a um esforço cômico fracassado.

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