Aproximação:


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Original: Disengagement
País: Alem/Itália/Israel/França
Direção: Amos Gitai
Elenco: Juliette Binoche, Liron Levo, Jeanne Moreau, Barbara Hendricks.
Duração: 115 min.
Estréia: 12/03/2010
Ano: 2007


Um cinema que evoluia.


Autor: Ériko Fuks

É notório perceber que Amos Gitai vem evoluindo seu cinema à medida que procura estabelecer seu ponto de equilíbrio. “Free Zone”, por exemplo, instaura um novo lirismo em sua trajetória que flerta com a cinematografia iraniana do gênio Kiarostami ou até mesmo com Tsai Min-Liang, especificamente naquela interminável cena de choro. Em trabalhos mais antigos, como “Kadosh”, o mais visto por aqui e o mais polêmico nos debates em clubes e sinagogas, havia um tom ressentido em relação ao seu povo e sua cultura. Seu olhar mecânico para a realidade confundiu a dureza e os conflitos de um relacionamento matrimonial com os hábitos ortodoxos de uma religião que prega a tradição para se preservar. O aparecimento de um amante surge como artifício escapista para não se resolver o caos familiar em seu próprio núcleo. Já em alguns de seus filmes posteriores, como “Kedma”, Gitai exercitou com um desempenho mais ágil seu olhar atento para a realidade de uma guerra. Aí ele se deu melhor. Sua câmera-repórter, tão orgânica quanto plástica, procurando captar todo e qualquer segundo bélico, estabelece uma relação mais direta entre a proposta do filme e o espectador, deixando as intervenções e o discurso autoral para segundo plano.

Aqui em Aproximação acontece um pouco de tudo. O que é um sinal positivo nesse caso. O primeiro momento ocorre em um núcleo fechado, triste, sombrio. Ana (Juliette Binoche) reencontra seu meio-irmão Uli no velório do pai de ambos. Para Ana, ainda não caiu a ficha da situação. Ela parece estar meio aérea e insensível ao fato, encarando a morte não como uma perda, mas talvez como um ato de libertação. Todos os personagens desse contexto específico, embora fisicamente próximos, são muito distantes entre si. Nem parece que são parentes.

É na seqüência seguinte que a câmera de Gitai começa a dar outro tom. O testamento do pai determina que Ana deve visitar sua filha, que mora numa comunidade agrária na faixa de Gaza. É aí que a mistura entre os conflitos familiares e políticos encontra seu ponto mais alto. O diretor usa sua câmera aflita, coisa que sabe fazer tão bem, mais para provocar a intensidade do momento do que para não perder nenhum minuto dos fatos. Essa pasteurização entre a calma e a frieza do início com o período tenso das brigas seguintes coloca Aproximação num patamar superior em relação aos seus filmes anteriores. Gitai abandona o rancor em relação ao seu povo judeu ortodoxo e coloca essa comunidade na situação de vítima. Assim, fica mais claro observar que a mágoa do diretor é em relação ao governo de seu país. São as medidas políticas que fazem mal ao seu povo, não a preservação de preceitos bíblicos imutáveis. A ordem de retirada da população da faixa de Gaza por determinação de um acordo que Israel fez com os palestinos coloca em xeque até que ponto dá para se tomar partido nessa guerra infinda. Binoche está esplêndida ao traduzir para as telas, mais por gestos do que por palavras, quais os efeitos morais e psicológicos que esse conflito sem-salvação pode trazer a um país inteiro, a um grupo de habitantes e até mesmo, fechando o cerco, a uma família onde um está de cada lado. A evolução de seu personagem, antes simbolizada na figura de uma falsificadora de documentos, é o clímax dessa retirada mais com cara de ação de despejo. A protagonista diz muito de Gitai, antes um manipulador de ideias, que aos poucos vai transformando seu cinema em algo mais íntimo, menos barulhento e mais soluçante.

(crítica feita na 31ª mostra internacional de cinema de são paulo)

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