Ilha do Medo:


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Original: Shutter Island
País: EUA
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo e Ben Kingsley.
Duração: 138 min.
Estréia: 12/03/2010
Ano: 2010


Martin ainda inovando.


Autor: Cid Nader

Um dos maiores gênios do cinema mundial ainda em atividade. Definição enxuta e concisa sobre Martin Scorsese, que, mesmo sabendo cá no meu íntimo ser de pouca monta para adjetivá-lo, ainda encontra resistência em alguns outros setores da crítica – que, normalmente, vêm com um discurso pré-concebido que alardeia ter esse já veterano diretor norte-americano “parado” no tempo, esquecendo-se dos bons métodos da construção cinematográfica, em favor de acomodação sobre louros obtidos, e apontando, inclusive, um retrocesso a estilo estético edulcoradamente falso, com pieguismo imagético. Bem, mesmo se fosse pra acalmar almas conturbadas que se agarram a pré-concepções, ainda que amigas, não deixaria de rir ante a maioria dos argumentos engendrados por detratores dele, que carregam substância tão esvaziada quanto esses que citei acima. Pegar no pé é um modo de aparecer e marcar terreno, e quando se faz isso com alguém mitológico, muito mais atenção será obtida.

Indo ao Ilha do Medo mais especificamente, já que discutir sua extensa carreira me parece, nesse instante, fora de propósito – sendo que nem sou daqueles que defendem à exaustão alguns de seus filmes mais recentes no intuito de entronizar todos no mesmo nível, mas crente e convicto de que, mesmo com “obras menores” ainda está muitos pulos acima de grande parte do que é produzido por esse mundão -, creio ser possível ver argumentos muitos dos vis desmoronarem facilmente ante o constatado. Estética edulcorada ou vazia é algo que não irá ser encontrado no filme, que se nutre demais da capacidade de diretor de imagens, momentos e composições cenográficas, típicas do grande diretor que é Scorsese: difícil imaginar no cinema dos últimos tempos – sim, há e até no mesmo nível, mas difícil – a recriação de ambiente imaginada e executada por ele como fez aqui, e, principalmente, as ideias (ângulos, helicópteros, luz, dinâmica visual...) pensadas para transformar tudo em ganho que não sai facilmente das retinas. “Ilha” é daqueles filmes que fazem crer demais no centro do cinema baseado na arte do visual em movimento. Lembrando como um “simples” exemplo toda a extensa e complexa chegada de Leonardo di Caprio e Mark Ruffalo à ilha hospital/presídio, desde os momentos no mar, até quando a câmera observa subjetivamente os entornos das construções, enquanto o carro que os acolheu no cais parte em sua direção: desde esse início se percebe que o filme agarrará demais pela força do filmado e pela qualidade do representado pelo editado.

Há momentos de composição forte, que alternam piedade pelos reclusos no hospital psiquiátrico, ou pelos judeus exterminados nas lembranças de di Caprio nos tempos da Segunda Grande Guerra, a situações de stress e medo provocadas por possibilidades a serem alcançadas na próxima esquina, como se fosse esse um grande thriller. Há a criação das sequências de pesadelos ou imaginação, que criam atmosfera de filme de terror ou culpa. Todo o dinamismo e andamento do filme é controlado a "mão de ferro", fazendo com que o trabalhado técnico/estético não seja merecedor de qualquer tipo de ressalva - nem as alardeadas de fraqueza ou comodismo piegas.

Scorsese também é reconhecido pela capacidade de musicar seus trabalhos – lembrando que ele chega a construir momentos que tentam decifrar a história da música norte-americana em uma série de seus filmes que buscam resgatar o modo de conformação de sua sociedade, tal seu cuidado com o assunto -, e o que ele obtém em engrandecimento de climas e situações específicas, com música de suspense forte (lembrando momentos de suspense de Hitchcock, ou mesmo Jacques Tourner – citado por ele próprio como referência evidente), é tão justo e decisivo que, aliado à qualidade superior das imagens fica fácil imaginar como deveria ser “simples” fazer cinema, dentro do mínimo que ele exige como bom tratamento. As situações são pontuadas e valorizadas exemplarmente pela trilha sonora e, novamente encafifado pelas opiniões discordantes sobre o atual estágio dele como realizador, fico imaginando quantos seriam capazes de fazer costura tão exata e sem nenhuma rebarba.

Baseado num best-seller literário, “Paciente 67”, de Dennis Lehane, ouso imaginar – sem ter lido o livro – que um senão a ser ressaltado quanto ao filme talvez tenha origem na estrutura de revelação dramática, na obra escrita: mesmo sem acreditar que seja o caso de tentar entender esse trabalho do diretor sob prismas de avaliação quanto a métodos de conclusões na história e os modos como foram apresentados, diria - se quisesse ressalvar algo mais especificamente -, que próximo do final, quando se descortina ao público verdades que talvez até então não tivessem sido descobertas por ele (o público), a opção em fazer isso (a grande revelação), via troca de diálogos explicativos entre personagem principal e seus potenciais “inimigos”, em detrimento de fazê-lo por outros métodos mais cinematográficos, resultou um momento de aparência pobre, meio teatral, meio tosco. Mas vale dizer que tal situação imediatamente é “remediada” pela utilização de imagens e cenas “filmadas”, criadas “à bom cinema de Scorsese”, onde novamente se percebe a capacidade de realizador na área, de fruto da área, de mestre no quesito. Mas não creio que a discussão sobre o filme deva ser estabelecida – por discussões críticas, ao menos – em cima de dados isolados no trabalho, ou mesmo na história contada (algo que o espectador irá ver e descobrir, gostar ou não): creio que aqui deva se falar de cinema e de alguém que sabe como fazê-lo: como poucos. Creio que a resposta quanto a dúvidas sobre sua atual capacidade se responde firmemente no trabalho – basta querer ver. Creio, até, que acusá-lo de “parado no tempo” é não atentar à mudança de discurso e alvo utilizados em Ilha do Medo, que distanciam o diretor de sua saga em retratar a formação de sua pátria (que vinha sendo repetida quase que ininterruptamente há anos, algumas vezes com trabalhos épicos), para que ele embarcasse num filme que fala do ser humano isolado em seu interior (doente mesmo, até), seus medos, seus ódios, onde ele é sua pátria, e onde a formação da sociedade (e seus métodos de correção e alinhamento, mesmo quando há boas intenções por trás) aparece para implicar prejuízo. Martin ainda ousa bastante.

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