Coração Louco:


Fonte: [+] [-]
Original: Crazy Heart
País: EUA
Direção: Scott Cooper
Elenco: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal e Robert Duvall.
Duração: 112 min.
Estréia: 05/03/2010
Ano: 2009


Truques dão raivinha.


Autor: Cid Nader

Coração Louco é daqueles filmes norte-americanos que fala do cara caído, subjugado por forças do mal (bebidas ou drogas), mas que, por alguma razão qualquer agarra uma chance que não se sabe mais de onde poderia vir, ressurgindo, reerguendo-se, para voltar a fazer parte do bom mundo dos mortais. Daqueles trabalhos que procuram resgatar a crença ianque no amor como uma possível âncora (se bem que tenha falado de tipos caídos, não naufragados – mas vá lá, compre-se a metáfora), a mais provável e forte, de salvação: mesmo que não a âncora definitiva, mas a que resgata, de toda forma. Coração Louco ameaça (parece ter sido mesmo) ser baseado em fatos reais (como adora o povo lá do norte), e faz dessa ideia – a de ver, mais do que um simples personagem de cinema ser resgatado, um ser humano de verdade, um compositor country – mais um ponto de cooptação forte em torno de si.

Scot Cooper é praticamente inciante na direção, aproveitou caminho já traçados, abraçou a ideia dos produtores (entre eles, Robert Duvall, que atua no filme e ainda canta no fim dos créditos derradeiros), falou de loucos nas estradas americanas, engatou um caso de amor improvável, e deslocou personagens por paragens mitológicas, ao modo de se lembrar dos EUA quando se pensa nele visto por lentes de cinema (além das estradas, enormidades de espaço, bares no meio do nada, carros antigos, o tal sujeito caído bebendo e se hospedando em motéis, sol do sul, boliches...): modo, inclusive, no qual se reconhecem também os habitantes de lá. Não seria mal a tentativa se fosse intenção somente a de realizar um filme ianque, com locais ianques, tipos ianques, redenção ianque. Até vai bem por boa parte o trabalho, com atuação bastante correta de Jeff Bridges (bastante boa mesmo nos momentos em que retrata bem o compositor e cantor Bad Blake em seus momentos de cara avesso a tudo e com raiva de não ter enriquecido), inserções velozes e boas também, de Collin Farrel e do próprio Robert Duvall (que ainda emenda uma canja cantando uma canção, no final dos créditos derradeiros). Enfim: o diretor até poderia ter se dado bem dentro de uma proposta acomodada (sendo que creio justo propostas "acomodadas" em trabalhadores iniciantes na área, desde que carreguem consigo o respeito à arte e aos espectadores), já que pegou "dados" do país mais cinematografado e idealizado no século XX, já que obteve atuações boas, e, já que não abusou de maneirismos estéticos ou tal.

Só que (ah, esse maldito "só que") Cooper - por sub-linhas, por pequenos deslizes, por algo que paira no ar desde que o "louco" Bad Blake se apaixona por Jean Craddock (Maggie Gyllenhaal), e mais ainda, tomando para si um ar de paternidade, improvável, responsável por seu filho (dela) - havia preparado um truque, pensando no encaminhamento que um desorientado deveria percorrer para alcançar a "glória redentora". Pior do que pairar no ar a suspeita der um truque poderia ser utilizado é constatar que tal é feito mesmo. A mudança de atitude, a correção, o sofrimento que passa a regrar o novo destino de Bad, por conta desse embustezinho facilitador (que não é drástico não, mas envolve a afeição dele pelo garoto e o desembarque disso numa "pequena" falha sua) imaginado por ele, jogam no chão um trabalho que poderia ser vendido como algo meio ingenuamente americano, fazendo o filme passar de um estágio de avaliação, "simpático", para o de, "que raivinha".
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