Entre Irmãos:


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Original: Brothers
País: EUA
Direção: Jim Sheridan
Elenco: Natalie Portman, Tobey Maguire e Jake Gyllenhaal.
Duração: 107 min.
Estréia: 05/03/2010
Ano: 2009


Desmascarando Sheridan?


Autor: Cid Nader

Não sei se o diretor Jim Sheridan parou no tempo e no espaço ou se sempre, desde o início de sua carreira como diretor, esteve parado. Ao ver esse seu mais recente trabalho, Entre Irmãos, o que fica martelando na "telha" é: será que algum dia ele foi um diretor confiável mesmo. O que ocorre é que nem sei se teria coragem de rever alguns de seus trabalhos iniciais e de maior sucesso, como "Meu Pé Esquerdo" (lá do distante 1989), ou ainda "Em Nome do Pai" (1993). É certo e líquido que as opções dele sempre foram de teor sentimental ao extremo do poder de assimilação de nossos sentimentos - só que na época desses dois filmes que citei, como vinham envolucrados com papel de resistência militar ou social, numa Irlanda ainda em fase de luta pelo poder contra a imposição do governo centralizador inglês, provavelmente fatores manipuladores tenham ficado em segunda ou terceira ordem no momento de colocar as coisas na balança final.

Passados muitos anos afastado de constatar alguma outra realização sua fica nítido o anti-sentido no conhecimento da boa realização cinematográfica que se mostra como algo bastante sinônimo ao diretor, aliado à manipulação "safada" dos sentimentos: manipulação que tenta substituir regras básicas e técnicas com remexidas direcionadas ao nosso emocional. No filme - que fala de dois irmãos (um vencedor e outro perdedor - dentro dos parâmetros institucionalizados da sociedade comum), que os antagoniza pelas opções de vida (um herói no esporte e na guerra, outro recém saído da prisão - por crimezinho barato, o que denotaria ser um sujeito mais desprezível do que um criminoso mais "poderoso"), que os joga ao acaso do julgamento social (afora o fato canhestro de calcada marcação de territórios exercida pelo pai insensível – interpretado por Sam Sheppard) - espera-se o tempo todo situações manipuladas e manipuladoras agindo incessantemente sobre a narrativa.

Do filme, quando não se acredita em nada mais possível de ruim acontecendo ao irmão (Tommy – interpretado por Jake Gyllenhaal) que “escolheu os piores caminhos”mal, e nada mais possível imposto como sofrimento ao exemplar irmão fuzileiro (Sam – Tobey Maguire), surge a novidade da inversão de valores, da inversão de papéis, das necessidades de mudanças nas crenças que indicavam quem era um e o que era o outro. Longe de perceber as guinadas impostas por Sheridan como um grande sentido de observação humana, ou das possibilidades de mudanças ante avaliações externas quando a porca torce o rabo e a coisa fica preta, percebe-se sim uma mão pesadíssima. que impõe a essas mudanças (que “deveriam” ser sutis) o papel de imantização da plateia pelo nó na garganta apertado sem dó, pela reação próxima à consternação, pela dó. Sim, por aí se compreende que o cinema do diretor provavelmente sempre foi apelativo: sempre se nutriu das lágrimas arrancadas, não das brotadas.

Por aí se compreende, também, que mesmo o fato de executar num dado momento um cinema que utilizava as questões políticas de seu país como um mote “crível”, talvez deva ser encarado hoje, com olhar mais apurado, como técnica de sedução barata (num omento em que o mundo ainda era bastante conturbado por resquícios de ex-colonizadores tentando se manter poderosos a qualquer preço: como aceitá-lo sujeito justo, política e socialmente, quando se vê nesse Entre Irmãos os afeganes retratados com as tintas mais preconceituosas e caricatas possíveis? E veja que não estamos de santinhos não. Mas chega a ser execrável constatar que, para fazer do drama dos irmãos algo razoável no momento de “suas mudanças”, o retrato feito, por ele, dos “guerrilheiros” do Afeganistão, está mais próximo do imaginário do capeta da pior espécie hostilizado aos berros por pastores dessas novas igrejas evangélicas, do que de seres humanos (ruins que sejam).

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