Simplesmente Complicado:


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Original: It’s Complicated
País: EUA
Direção: Nancy Meyers
Elenco: Meryl Streep, Steve Martin, Alec Baldwin e John Krasinski.
Duração: 120 min.
Estréia: 26/02/2010
Ano: 2009


Leve?


Autor: Cid Nader

Uma vez, durante a Guerra do Líbano (que durou cerca de dez anos – 1975 a 1985), constatou-se através de uma pesquisa científica que crianças já quase adolescentes nascidas durante o conflito não sabiam o que era o silêncio em suas vidas. Desde o nascimento acostumadas com o som de aviões e bombas, imaginavam aquilo como algo natural – como o seu som da natureza, do cotidiano. Hoje, passadas quase duas décadas daquele incessante conflito (se bem que em meio desse novo período vários outros “pequenos” tenham sido deflagrados), é de se imaginar o quanto tal situação deve ter colaborado para personalidades deformadas e confusas, resultadas de então, em gente já adulta. Bem. Sendo mesmo drástico com um início tão estranho para comentar algo sobre um filme que está designado como comédia, Simplesmente Complicado, tento fazer ver (mesmo podendo oferecer a pecha de que sou daquela turma radical que não se diverte por nada e tenta enxergar “braços de associação” em qualquer assunto que seja transformado em filme – o que não é verdade) o quanto cada ambiente influencia no modo de composição de sua sociedade, principalmente quando afeta mentes desde a mais tenra idade.

Mesmo sabendo que alguns dos grandes e bons trunfos desse “fácil” filme – fácil no sentido de fluidez e comunicação instantânea com a plateia, no melhor dos sentidos – estão calcados nas boas atuações executadas (sendo que o ápice é atingido por Alec Baldwin – interpretando o ex-marido, Jake -, desprovido do orgulho do antigo galã, que envelheceu e engordou, nada mais natural, fazendo dessas novas nuances grandes ganchos de auto-comédia e autenticidade quanto a se reconhecer em, nova fase da vida); mesmo percebendo que além da alcunha de comédia o filme pode arrogar facilmente uma outra que o faça ser visto como filme de amor na maturidade; mesmo sentindo que a diretora Nancy Meyers direciona o filme, de modo mais conscientemente perceptível, a públicos diversos que não queiram muito ter o que ruminar e deduzir; mesmo com todo esse embrulho mais prático, sente-se por entrelinhas não tão ocultadas assim que a questão dos “filhos do divórcio” é algo bastante relevante e complexo a ser pinçado e percebido como uma razão bastante contundente da trama.

O ator que faz Harley (John Krasinski) - futuro genro do ex-casal, que é completado por Jane (Merryl Streep) – ganhou evidentemente um papel interessante da diretora: um jovem ainda, mas mais adulto que a trinca de filhos de Jane e Jake, que ganha importância equilibradora em suas vidas, e que ainda recebe no filme alguns momentos de humor bastante hilários: esse é um ponto facilmente positivo do filme. A atuação de Steve Martin (no papel de um arquiteto que poderá vir a ser um contraponto às dúvidas que ainda embalam a separação em seus muitos anos decorridos), já, por outro lado, talvez seja a mais fraca, menos convincente. Merryl Streep se repete no quesito atuações fáceis e bem executadas – parece que ligou um automático e jamais pisa na bola -, e passa credibilidade. Os próprios três filhos, com seus olhares curiosos e amizade própria de pessoas que sofrem pelo separação incontornável dos pais, também dão bastante bem conta do recado e compõe mais um elemento forte, num filme que aposta bastante nas atuações.

Então: seria um trabalho de fácil assimilação, e de tranquila digestão, despretensioso, se lido somente por suas linhas superficiais. Mas, justamente na atuação dos filhos (principalmente no momento em que se os encontra assutados numa cama após situação inexplicável para cabeças que penam ainda o divórcio), pose-se emblematizar algo mais profundo da cultura e dos medos norte-americanos, que tem a ver com desconstituição familiar (num país que foi a válvula de injeção para isso, a já mais de meio século). E é, justamente lá dentro, nesse meio caminho a ser depreendido e capturado pelo espectador, que a minha ideia de falar dos problemas humanos concernentes a cada situação e local (quando cito os jovens libaneses) tenta fazer perceber Simplesmente Complicado como um produto que pode estar a serviço da indústria do entretenimento ianque, em sua cada vez mais messiânica luta pelo bem estar do lar: se bem que, aqui, ao menos, os seres maduros acabem não concluindo a trama da maneira mais careta a ser imaginada.

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