Pachamama:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eryk Rocha
Elenco: Documentário
Duração: 105 min.
Estréia: 26/02/2010
Ano: 2008


Viagem pelas veias abertas da América Latina mais profunda.


Autor: Cid Nader

O grande trunfo que provavelmente Eryk Rocha imaginou para esse seu novo documentário, Pachamama, se situava nos discursos oralizados das pessoas e trabalhadores com os quais cruzou na empreitada, mas o tiro certeiro (metaforicamente falando) aconteceu na composição imagética alienada obtida. Talvez resida na cabeça do diretor uma necessidade interior (provavelmente sem fundo abertamente reconhecível e perceptível) de querer construir seus filmes com a dinâmica e o “descompasso” operístico social que seu pai (o grande Gláuber) executou durante toda sua obra. Talvez, o filho, ainda nutra desconforto em acreditar simplesmente nas suas potencialidades (e com isso não quero dizer que ele seja um assombro ou a mais nova força da natureza: simplesmente que talvez não esteja sendo tão ele quanto deveria – pra ver como fica) e esteja transitando por vias reconhecidas (o que seria óbvio, se falarmos em convívio e em DNA), tão comuns ao seu modo de entender da arte.

Na realidade, não importando tanto tentar decodificar Eryk em suas entranhas e em seus momentos, atendo-me ao diretor que executa e à obra que tem jogado ao público para ser reconhecida e analisada, fica fácil perceber que há uma coerência nesse trilho por onde anda traçando suas características. Seu cinema não é de modo algum adequado e conformado ao que se faz por aí de maneira acomodada, indo mais além ao impregnar-se de sangue e suor dos tipos que retrata. Em Pachamama, isso explode de modo bastante óbvio, e a ideia de que ele partiu sem rumo ou roteiro para confeccioná-lo (uma câmera na mão e mil ideias na cabeça) pode até ser comprada como verdadeira. Nesse caso – o de ter saído com equipe, carro e equipamentos em punhos, na direção da América Latina que teve suas veias abertas e quase sugadas (Peru e Bolívia) – daria pra ir além de simplesmente aceitar sua opção pelo não conformismo e pela não cartilha, e compreender o filme como resultado obviamente impactante ao que foi visto/gravado sobre mentes jovens que não sabiam o que iriam encontrar.

Ainda nesse caso, compra-se o obtido com agradável prazer em ver tentativas sobre o “nada sabido anteriormente” resultando um trabalho de bastante apuro estético e de forte rendição ao tal discurso oralizado de povos secularmente explorados e excluídos. Nesse caso, torna-se compreensível ele ter relegado as imagens a um grau de ornamentação do que foi dito por mineradores, plantadores de coca, políticos grandes e pequenos. Mas, justamente por um certo excesso em emprestar importância a mais a esse viés discursivo, tento a notar e depreender que uma certa “manipulação” ao dizer que "saiu para filmar sem ter nada mais concreto em mente" pode ter sido executada – como método de atração, de forma, não de enganação.

E, pensando na possibilidade de que algo mais estruturado já estava na mente de Eryk (além de pensar no resultado como um todo que deve prezar mais pelas suas evidentes virtudes do que pelo prazer glauberiano quando são emitidos fortes discursos sociais), creio que o filme ganharia muito se ativesse suas forças mais direcionadamente às suas possibilidades imagéticas, sem muita dó de parecer exercício de estilo. Além das mudanças de ambientes obtidas através das janelas do carro utilizado para a empreitada – que perfizeram por si próprias um apanhado geográfico-climático bastante amplo e ilustrativo -, o que as lentes conseguiram captar em cada região observada com mais calma já seria suficiente para falar pelo filme. O documentário ganharia muito se tais possibilidades tomassem a dianteira como mote idealizado para a condução do trabalho. Não que os discursos fossem de pouca importância: não. Mas é que recitavam coisas comuns aos livros, ao que se pode observar quando se lê grandes autores da região (citou-se até o grande Eduardo Galeano), ou quando se lê matérias de jornais. E um filme fala (deveria, aom menos) muito mais pela sua “alma visível”. A opção em dividir os espaços foi do diretor e não resultou um trabalho dispensável. Mas poderíamos ter constatado, ao final, um resultado bem mais memorável: e, talvez, até, com Eryk desgrudando-se de seus fantasmas.

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