Os Inquilinos:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sergio Bianchi
Elenco: Fernando Alves Pinto, Zezeh Barbosa e Caio Blat.
Duração: 102 min.
Estréia: 26/02/2010
Ano: 2006


Nossas covardias.


Autor: Cid Nader

Sérgio Bianchi – é lógico que qualquer filme dele começará com seu nome como a primeira coisa a ser citada e comentada – é um diretor de cinema absolutamente atípico dentro dos caminhos tomados pelo cinema nacional das últimas décadas. Já de início, pela sua personalidade forte, pouco conformada, de poucas anuências aos que o comentam e tentam aproximação – mesmo aproximação crítica -, que chega impor temor aos mais educados ou acovardados (virou mitológica essa sua fama de pessoa disposta a resolver pendências e “desanuências” por palavras mais ríspidas e atitudes mais decididas).

Na sequência de um pouco de esclarecimento sobre ele, sua opção por falar sempre e sempre de temas que incomodam e tendem a relevar burguesia e poderosos a instâncias mais próximas do merecimento do inferno, criou para sua obra uma aura de trabalhos de difícil trânsito junto ao grande público, e preguiçoso na construção formalista – por conta de parecerem, sendo mesmo por muitas vezes, sempre panfletariamente “humanistas demais” -, o que não o coloca como um autor a ser sempre bem visitado pela crítica. Portanto, sempre que um filme novo seu assoma à vida, sua figura toma papel de destaque primeiro aos olhos de quem vai visitar a nova cria. Feitas essas observações, fazendo perceber que sua carreira é de fato autoral em ideal – não pela forma -, vale alertar que sem nenhuma dúvida Os Inquilinos é um filme de surgido de suas mãos, ideias, idealizações.

Vale alertar, também, que é um de seus melhores trabalhos – principalmente entre os mais recentes -, e talvez o seu mais bem finalizado. Quando digo bem finalizado, digo que o diretor dessa vez pensou sim em passar seu recado social do modo agressivo que lhe é tão costumeiro, mas ousou mais no quesito técnica, edição, fusão e encadeamento da história, o que rendeu um filme de mais fácil empatia, e trânsito mais magnético, capaz de manter as atenções mais ligadas. Não bastasse o fato da tensão próxima que a história impressa na tela – tensão próxima, digo, como fator de identificação entre o público comum que o assistirá e as situações que desenrolarão, principalmente as vividas pelo personagem principal, o pai comum, de uma família comum da periferia trabalhadora, vivido plácida e corretamente na medida por Marat Descartes.

Tudo se passa num momento forte em que a cidade de São Paulo se vê mergulhada, que relaciona fatos de violência espalhada aos ocorridos na época das invasões de delegacias e esvaziamento urbano ocorridos em 2006 – não obrigatoriamente o filme refere à data e ao episódio especificamente. Tudo se passa dentro de um bairro de extrema periferia – que lembra os da do extremo da zona sul de São Paulo -, quando uma família comum passa a ter sua vida incomodada pela novidade imposta, de vizinhos novos arruaceiros e com forte aspecto de serem ligados à marginalidade. Tal novidade surge como método de tentativa de vingança de uma ex-vizinha a um senhor de idade que se recusa a sair da casa – fato que lhe valeria a ela um bom retorno financeiro. A história é de fácil compreensão e dispensável de ser contada. De dentro da simplicidade ameaçadora à paz da rua e à da família comum, o diretor consegue extrair alguns dos fatos que mais o incomodam na sociedade mais comum. Ao nos colocar parceiros dos medos e das tensões passados a ser sentidos pelo pai de família – muitos de nós nos veremos na sua situação, teremos esses seus medos, suas covardias, seus desejos e sonhos de vingança (realizados por ele em sonhos e devaneios fugazes), suas sensações de inferioridade até no quesito masculinidade junto à sua fêmea... -, Bianchi consegue fazer com que seu filme seja tremendamente mais bem captado, “enganando-nos”, para, no final, jogar em nossas caras nossas omissões e nossos “acasulamentos”: quando nos recolhemos, fingimos que não nos vemos o que se passa do outro lado do muro, não nos envolvemos para não sermos notados pelo “mal” que aflige a todos, mais ameaça de forma mais incisiva a um.

O filme é bem realizado, causa tensão, e não se aproveita de violência mostrada para tal – mais fácil assustar por sugestão, já que remexe nos nossos interiores. A mãe de família que parece assustada ou ausente com seus cigarros, revela após a tragédia consumada ser um de nossos quinhões mais execráveis: algo que mistura fofoca e curiosidade mórbida. Interiores que fazem de nossa covardia e ausência, ato de coragem e pedido de vinganças. Sérgio Bianchi acertou dessa vez: contou suas histórias de sempre, mas passou o recado com muita ginga e finta em nossas sensações.

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