Um Olhar do Paraíso:


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Original: The Lovely Bones
País: EUA/Reino Unido/Nova Zelândia
Direção: Peter Jackson
Elenco: Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Rachel Weisz.
Duração: 135 min.
Estréia: 19/02;2010
Ano: 2009


No meio termo


Autor: Gabriel Carneiro

Primeiro longa dirigido por Peter Jackson desde as superproduções “O Senhor dos Anéis” e “King Kong”, Um Olhar no Paraíso parece se aproximar mais de seus filmes anteriores. O cineasta vê o fantástico numa história comum e trágica, e talvez aí residam os problemas do longa.

Há dois momentos distintos: a primeira parte, que fala sobre a vida de Susie Salmon, antes e logo depois da morte, e a segunda parte, que versa sobre seu próprio paraíso e o que ocorre com os familiares após seu falecimento. Estranhamente, Jackson, que é um dos mestres contemporâneos do cinema de fantasia, parece não saber o que fazer direito quando Susie passa a olhar seus conhecidos do paraíso.

A premissa é interessante: a garota de 14 anos é assassinada pelo vizinho esquisito, sem motivos aparentes, e vai para o ‘meio termo’, aquilo que está entre a Terra e o céu, enquanto, naquela, tentam descobrir o assassino. Jackson sabe muito bem caracterizar seus personagens, dar-lhes um singelo humanismo, fugindo do lugar comum, criar empatia do espectador pelos seus personagens. A abordagem – a melhor coisa do filme – é ótima: o cineasta vê o mundo pelos olhos de Susie Salmon, seus delírios juvenis, a vontade de se encontrar no mundo, a queda pelo veterano, a inexperiência e ingenuidade adolescente. A morte não lhe parece ser um problema, fala dela ao espectador sem desespero, como se fosse mais uma etapa de sua vida, mesmo que precoce.

Vemos então a transição, quando Susie, confusa, parece se dar conta de como morreu. É a grande cena do filme. Justamente porque vemos pelos olhos da garota, sua descoberta é nossa também. Nossa expectativa é igual à dela, e não entendemos o que ocorre, assim como ela. Tudo é meio turvo, a fotografia alterna entre a sépia, o preto-e-branco e o colorido estourado para mostrar os devaneios de sua (nossa) cabeça.

A partir daí, Jackson parece abandonar essa visão. Os adultos dominam o cenário, desesperados pela morte inesperada e pelas diferentes reações à morte da jovem. Susie amadurece, e se ressente. Assim como o pai, fica obcecada pela punição do seu assassino. O drama juvenil se transforma num policial. Alternam-se momentos de raiva com a descoberta do maravilhoso paraíso, que a garota parece tanto prestigiar. Dizem que ela não irá para o céu e ficará naquele lugar (que é uma versão “light” do céu) se não se libertar da Terra, do passado. Aí a obsessão aumenta. É quando a abordagem deixa de ser o olhar da garota e passa a ser colaborativa, misturando a visão da irmã e especialmente do pai – usando-se muitos flashbacks.

E Jackson se arrasta nessa segunda parte por muito tempo, no processo de investigação, numa tentativa de se aprofundar no vizinho, tentar costurar as peças do crime sem ser óbvio e objetivo. Só que parece não saber o que fazer. A garota, perdida no ‘meio termo’, tenta se impor no filme, fazendo aparições, passeando, saltitando ou reclamando. Mas, contrariando o que parece ser filme, ninguém se importa mais com Susie, e sim com o assassino, em prendê-lo. E fica justamente no meio termo, sem ser um policial que te prende atenção e sem ser um drama juvenil.

Quando o cineasta parece se dar conta da grande indefinição que é seu longa-metragem, sua conclusão será predominantemente sobre um dos dois gêneros, mas aí já é tarde demais. Não há muito que fazer para consertar, a não ser, talvez, ser óbvio. Mas Jackson não quer isso, e, o que seria uma revolução interna na trama, vira um momento clichê, frustrante, que beira o constrangedor. Na busca do singelo da primeira metade, vemos o exagero fantástico da segunda.

Susie Salmon vira o fantasma estereótipo; quem ainda precisa disso num filme do gênero de Um Olhar no Paraíso?

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By Peter Jackson