Um Homem Sério:


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Original: A Serious Man
País: EUA/Reino Unido/França
Direção: Joel Coen, Ethan Coen
Elenco: Michael Stuhlbarg, Sari Lennick, Richard Kind.
Duração: 105 min.
Estréia: 19/02/2010
Ano: 2009




Autor: Cid Nader

No início de Um Homem Sério os criativos irmãos Coen nos levam a tempos remotos de algum lugar incrustado no leste da Europa fria e supersticiosa. Muito mais supersticiosa por revelar um casal de judeus camponeses sendo “visitado” por uma figura prestativa que poderia ser simplesmente mais um velho da colônia, ou um “dibuk”. Para os precavidos e ressabiados descendentes das tribos de Israel – que seriam demônios encorporados em outras pessoas enquanto não encontravam o caminho para o destino final -, a ideia de cruzar com esses seres (os dibuks) era tão atemorizante quanto a morte: e o que mais que não a morte para desencadear a infinidade de mitos e ritos, religiões e superstições, regras a serem seguidas para que ela (ao menos) se fizesse destino da alma humana para algum lugar ameno após o "fim"?

É da criação religiosa e da profissão de humanismos que trata esse novo filme dos diretores. Profissão de humanismos no que refere a ter que se seguir regras comuns a grupos (normalmente regidas de forma implacável por caráter religioso, sendo que aqui eles vão diretamente à sua origem, que é o judaísmo) para se sentir um ser humano comum, que professa as coisas típicas da espécie, quando regrada. O início, rodado com caracteres da Idade Média e falado em Ídiche, é perturbador e muito pouco referente ao cinema de tez contemporânea que costuma ser executado pela dupla. Cessa-se esse início, rodam-se os créditos iniciais e nos vemos no mundo por onde eles onde costumam trafegar firmemente, que é o do século XX (mais especificamente, a história se passará na década de 60). Passamos, por imposição deles, do calmo patamar de observadores de um momento insólito e “pasmado”, para a configuração mais própria de seu jeito de fazer cinema: recheada de cortes assimétricos (por vezes velozes e extremamente curtos, por vezes contemplativos – com as pessoas de dentro do corte meio abobadas sem saber o que fazer ao certo -, por outras “tortos” e cheios de inconformação estético-naturalista...), repleta de seres com excesso de características pessoais, de rara miscigenação como os do entorno, carregados de culpas, de incertezas, de medos e dúvidas (não raro beirando o excessivo, muito amiúde com evidente pendor caricatural), e repleta de grandes momentos musicais (que aqui vai do modernismo psicodélico dos “Jefferson Airplane”, à execução de hits hebraicos, com predileção para canções religiosas).

Quando se junta esses pequenos pedaços de Coen, percebe-se que eles estão tentando transitar por um mundo criado por eles há cerca de duas décadas. Porém, talvez, nunca de maneira tão pessoal (imagino). Ao falar de um professor de física e de sua família, da tentativa de divórcio, dos vizinhos “góis”, de Rabinos sendo requisitados para mostrar o caminho da paz, da verdade (e da dificuldade de fazer desses conselhos algo palatável e decifrável para os tempos atuais – criando a sensação de discurso ao vazio, de superficialidade travestida de dogmas), de casas com amplos jardins gramados, de programas de TV e de antenas externas, e muito símbolos a mais, inequívocos de uma época e de um local específico, vê-se de modo quase inquestionável (imaginei eu) que além dos tipos e situações estranhas bastante comuns à sua obra, um monte de sua criação de vida (de sua infância) está como excelente modo de complementação de dados a serem utilizados. O filme tem ritmo fácil e certezas em seus vais e vens (quando alterna as situações complexas vividas pelo professor de física, Larry Gopnik – interpretado por Michael Stulbharg), por momentos angustiantes, por outros bastante/perversamente divertidos.

Quando se junta esses pequenos pedaços de Coen, vê-se que acertaram um bom petardo – como nem sempre conseguem, mas sempre tentado -, e percebe-se que ali se fala do ser humano no geral. Se eles utilizam os tipos estranhos e referem ao judaísmo como caminho de dúvidas e religiosidade a ser lembrada – pelo bem (porque há carinho também evidente nas situações) e pelo mal – é porque desses pedaços eles são constituídos. E o que vale mesmo, é que tratam da ampla e eterna questão humana, que refere ao temor da morte sem se ter sido aqui na Terra alguém sério e justo demais (para os padrões religiosos). Ah, esse maravilhoso medo da morte.

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