Percy Jackson e o Ladrão de Raios:


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Original: Percy Jackson & The Olympians: The Lightning Thief
País: EUA
Direção: Chris Columbus
Elenco: Logan Lerman, Sean Bean e Uma Thurman.
Duração: 121 min.
Estréia: 12/02/2010
Ano: 2009


Ladrão de mitologia.


Autor: Cid Nader

Parece até fora de tom iniciar um texto de filme desse gênero com considerações ranzinzas e sérias. É que o que pareceria a uma primeira olhada diversão imaginada para encantar adolescentes e cinéfilos mais relaxados, n o fundo no fundo carrega uma das manias mais insuspeitas da sociedade norte-americana: a família - como fator primordial na civilização humana, na construção da história, na necessidade ante os desígnios da Terra, no tudo, tudo, acima de qualquer outra coisa. Por vezes, o cinema de entretenimento de lá prepara peças cômicas e até com jeito de politicamente incorretas, para sempre, no final, reafirmar o casamento que escorregava no início, ou juntar um par improvável. Por muitas outras, constrói-se o drama para que lágrimas encharquem carpetes de salas de cinema, para que pensamentos abertos se sintam impossibilitados de serem construídos em mentes “impuras”, com intuitos finais que remetem ao casulo do lar e à sua força motora de resistência a invasões, uma nação de “escolhidos”.

Parece chato iniciar um texto para falar de Percy Jackson e o Ladrão de Sonhos deixando num segundo plano as sacadas e brincadeiras com seres mitológicos – sim, o filme vai diretamente, sem meios termos ao cerne da mitologia grega, busca e cita os “principais” deuses -, mas mais chato ainda é ter de me justificar para quem não gosta do cinemão ianque, quando o defendo por diversas vezes. O exagero de transformar a grande nação de lá de cima como centro inquestionável do universo até que já está bem delineado para quem costuma perceber sua mania (a deles) de importância, e o quanto o cinema sempre arrogou para si idiomas e colocação histórica – desde que descobriram que poderiam fazer propaganda sobre essa sua “importância inquestionável”. Chato, também, é de ter de levar e falar a sério sobre um filme que passa a impressão inicial de que quer divertir acima de tudo, mas que, além de exercer fortemente esse quinhão de terra dos escolhidos onde tudo deve acontecer por naturalidade – como o rio correr para o mar -, passa por cima da ciência, dos estudos, da formação dos tempos atuais para ir diretamente ao assuntado.

Seguinte: Chris Columbus vem lá de seu passado bastante profícuo com uma bagagem de realizar coisas palatáveis bastante rara, para, aqui, fazer dos tratados psicológicos - da criação da psicanálise, da decodificação dos mitos, e sua consequente transformação, para a compreensão dos meandros da mente humana – coisinha boba e sem importância, levando diretamente seu personagem principal, Percy Jackson, Perseu (interpretado por Logan Lerman), a tratar com diversos deuses e entidades, com um intuito final de reclamar o abandono quando, ainda criança, por parte de seu pai divino (Poseidon), que havia se apaixonado por sua mãe mortal. O grande drama (não o executado, mas o que se estabelece na cabeça de quem vê o filme) é que o diretor não se importa muito com o cinema em si, começando o filme já bem adrenalizado, entupindo nossas retinas com efeitos especiais tão modernos quanto manjados, e que já cansaram, inserindo humorzinho juvenil, e tudo mais que a obra literária (na qual foi baseado) provavelmente preconiza como seu maior mote de atração, para no fim se fazer entender como um reclamo direto, sem intermediários, ao pai, que rompeu a segurança do lar, a quem faltou, não importando graus de importância na escala universal.

Não sei qual o teor da série literária que gerou esse produto cinematográfico (são cinco livros juvenis de grande sucesso escritos por Rick Riordan). Sei que trata o assunto deuses da mitologia grega com irreverência e invetividade, a ponto de chamar a atenção da grande indústria. Pena ter que gastar texto com lamentações por ter pressentindo sub-intenções (e nem tenho nada contra o núcleo familiar formal) tão caretas quanto de teor repetido em favor de algo que seve a outras instâncias, e não por não ter gostado dos efeitos especiais, ou das atuações, ou do ritmo... Pena ter que ser chatamente metido a sério pra falar de um filme que deveria ser só diversão (boa ou ruim que resultasse): só diversão.

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