O Lobisomem:


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Original: The Wolfman
País: Reino Unido/EUA
Direção: Joe Johnston
Elenco: Emily Blunt, Anthony Hopkins e Hugo Weaving.
Duração: 102 min.
Estréia: 12/02/2010
Ano: 2009


Homenagem canhestra.


Autor: Cid Nader

Antes de qualquer outras considerações que penso fazer sobre esse O Lobisomem deixo bem claro minha opinião final sobre: é chato, fraco, dispensável. Mesmo totalmente consciente de que acima de tudo a real intenção dos produtores e diretor é a de “atingir” público interessado, basicamente, em trabalhos de facetas direcionáveis a serem celebrados como “blockbusters” (diversão fácil, imaginada feita por rios de dinheiro investidos), não imagino fácil arranjar argumentos para colocá-lo no patamar de bom “blockbuster” de entretenimento. O filme é “escorregadio” demais, fácil demais, superficial demais (nada de mais quando se pensa no espectador potencial a ser alcançado), mas revestido com uma camada de “tinta boa enganadora” que quer imaginá-lo (vendê-lo) possível dentro de segmentos do cinema que não os de sua real origem. Ou seja: tem de tudo que um filme “arrasa quarteirões” deve ter, mas – por pretensão descabida ou erro de cálculo, má execução da arte – não se aceita somente com tais predicados e tenta se ornar de pérolas, de arte, de qualidade estética oriunda de bons cinemas.

O diretor Joe Johnston e os produtores “venderam” o filme como uma refilmagem homenageadora ao clássico de 1941, estrelado por um abrutalhado Lon Chaney Jr. e dirigido por George Waggner. De concreta homenagem evidente existem, o jeito estranho e meio torto de correr (quando sobre duas pernas/patas) do lobisomem (aqui na versão de Benício Del Toro), e a reconstituição de uma Inglaterra Vitoriana bastante atrelada aos medos primários do ser humano antes da era do iluminismo, ou antes da subjugação do cristianismo. Sim, vários outros elementos referem ao filme do século passado, mas aí, junto com outras impropriedades, completam a enorme parcela do filme que faz percebê-lo como uma obra descartável.

A combinação de truques imagéticos – que vai, desde o mais simples e belo, que é a modificação das velocidades para a obtenção da passagem de tempo desejada, ao mais bobamente manjado e facilitador efeito de transformação dos corpos, ou à computadorização descarada em busca da violência sanguinária -, não consegue fazer crer numa sinceridade do filme. Percebe-se por essas manipulações técnicas que simplesmente meter medo pela figura entranhada de um lobisomem no inconsciente de uma raça que despertou e diferenciou das outras, também, por medo das trevas noturnas, não era suficiente na cabeça dos realizadores. Poderia-se fazer com que nosso interior se manifestasse em busca das razões que nos fazem temer a noite e os tempos intermediários entre a treva e a luz, pela simples exposição da lenda, pela suposição, pelo esgueirar de aparições. Poderia-se querer homenagear o terror da filmagem original e situar-se o novo nas escamas visuais que esse recente até apresenta (relembrando: os trejeitos do lobisomem, ou o clima soturno da Inglaterra que insistia em sair da medievalidade, por exemplo).

Como poderia se crer no poder do mito do ator (já que foram escolhidas figuras exponenciais ante a preferência pública, como o caso de Anthony Hopkins e o próprio Del Toro), como era bastante comum e utilizado no cinema de antanhos. Haveria bastante instâncias por onde o trabalho de Johnston poderia procurar seus rumos e atrair a clientela, mas, como que de um canto de sereias moderno e inquestionável ouvido, as opções principais buscaram caminhos que parecem mais tentadores e fáceis. O que restou, no quase todo, é um filme onde não se permite espaços para que público ou crítica imaginem respirar e pensar; onde as imagens têm que preencher todas as possibilidades óticas, entregando sangue, caras e monstros abertamente; no qual o som é intensamente dominado por música repetida que lembra a de outros trabalhos de Dany Elfman, ameaçando (aí um pecado imperdoável se fosse essa mesmo a intenção) rudimentarmente as do andamento principal do filme “Drácula”, de Coppola.

Com toda consciência voltada a tentar compreender O Lobisomem como um produto vendido para grande diversão – nem pensando na homenagem ao outro -, com toda a boa vontade em imaginar produtores impondo e querendo efeitos e sangue como modo de apavoramento (não como possibilidade de manipulação estética na tela), não acredito nesse trabalho. Falta sutileza, sobra quase nada.

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