A Fita Branca:


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Original: Das Weisse Band
País: A|em/Áustr/Fran/Itál.
Direção: Michael Haneke
Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur.
Duração: 145 min.
Estréia: 12/02/2010
Ano: 2009


Quase lá.


Autor: Fernando Oriente

Michael Haneke confirma em A Fita Branca seu inegável talento para conduzir um filme, dominando a construção das cenas, o uso do quadro e a evolução dramática. Ele sabe tirar proveito das tensões e dos climas que cria, além de propor discussões relevantes e tecer comentários críticos sobre a crueldade e ao desencanto do mundo. O problema de A Fita Branca, que também pode ser notado em outros de seus longas, é que o excesso de cálculo e a minuciosa elaboração formal não atingem totalmente as intenções, dando uma sensação de que o filme poderia ser mais. Haneke quase chega lá, mas seu preciosismo e frieza por vezes atrapalham. Falta, talvez, um pouco mais de coragem para experimentar. Um pouco de ousadia em abrir mão do domínio total da dramaturgia para se “perder” nas possibilidades e consequências desses dramas.

O ambiente de A Fita Branca, a cidadezinha alemã com seus acontecimentos trágicos e cruéis, a sensação de maldade e perdição moral que permeia e se cola à matéria do filme são os grandes trunfos do longa. O registro belíssimo em preto e branco amplia ainda mais a sensação de terror asséptico que está presente na gestação do Mal que o filme encena. A ótima presença física das crianças em meio à crueldade moralista e insensível de adultos corrompidos é potencializada pela segura mise-en-scéne de Haneke que transmite ao espectador toda a podridão do universo claustrofóbico que cria. A forma de A Fita Branca serve de aliada aos comentários do diretor por quase todo o filme, mas a frieza distanciada com que os dramas são recontados por meio das imagens e da narração em off chegam a um ponto de saturação quando sentimos que falta algo mais àquilo que estamos vendo. A evolução narrativa leva a fatos que já se sabe desde o início da projeção e, por mais interessantes que sejam os simbolismos criados, o distanciamento de Haneke sugere mais falta de ambição do que cinismo crítico. Para não cair no óbvio, o cineasta freia as possibilidades dramáticas.

Não se trata de infectar o filme com sentimentalismos e ações desnecessárias para simplesmente criar dramas mais intensos. Esses recursos seriam péssimos para a proposta do filme. O que se recente em A Fita Branca é um maior sentido de confiança do diretor em relação às potencialidades de seu discurso. Certo: a associação com o nazismo em gestação, a culpabilidade de toda uma sociedade e não apenas do fanatismo doente de poucos são grandes conceitos que a direção precisa de Haneke desenvolve muito bem. Já está praticamente tudo dito dentro desse contexto, mas o excesso de distanciamento e o tom didático da evolução do filme acabam por diluir o drama nos indivíduos, e não se nota o devastador efeito individual que tal monstruosidade coletiva poderia ter.

Alguns diálogos são elementos para que Haneke reafirme contextos que sempre coloca em seus trabalhos. O massacre existencial das mulheres por meio da crueldade sexual está representado na forma como o médico humilha e agride sua amante. A podridão do coletivo, que não poupa quase ninguém, é sentida na forma como os ambientes de cada lar se assemelham e se reproduzem, gerando uma cidade inteira impregnada de abjeção de espírito. A atuação homogênea e competente do elenco cria um grupo de personagens que se repetem no mecanicismo de uma crueldade maior: aquela mesma que gera todo o futuro condenado de uma nação.

Outro bom recurso do filme são os quatro meninos menores, o filho do médico, o menino excepcional, o filho do barão e o caçula da família do pastor. Eles ainda preservam uma inocência que será em breve corrompida e trazem em sua doçura todo um aspecto infantil que a brutalidade e insensibilidade dos adultos acaba por esmagar, literalmente no caso de dois deles. A dor imposta às crianças é representada de forma precisa por Haneke e o distanciamento no registro eleva o efeito devastador dessas ações sem a necessidade de apelação a sentimentalismos desnecessários. Aqui, a frieza do diretor trabalha em função do filme.

Michael Haneke insinua e sugere de forma enfática os comentários que deseja tecer. O problema é que essas sugestões e o que é insinuado não atingem o impacto desejado de forma plena. Os excessos de cálculo acabam por diminuir a complexidade e os efeitos daquilo que Haneke pretendia com suas sugestões. Um bom filme, que poderia ser muito mais. Quase lá.

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