Mother - A Busca Pela Verdade:


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Original: Madeo
País: Coréia do Sul
Direção: Joon-ho Bong
Elenco: Bin Won, Hye-ja Kim e Ku Jin.
Duração: 128 min.
Estréia: 05/02/2010
Ano: 2009


Cinema de gênero, instituição família...


Autor: Janaína Navarro

A instituição “família” é, não à toa, frequentemente retratada no cinema. Neste aspecto não há nenhuma novidade no ponto de partida de Bong Joo-Ho – mas apenas neste. Em seu filme anterior, “O Hospedeiro” (2006), Bong parte da humanização absoluta – até o ponto do patético – de seus personagens para desenrolar uma história de fantasia e heroísmo. Em seu novo filme, Mother, parte de um contexto semelhante para dar espaço a uma história igualmente humana, mas destituída, até certo ponto, da fantasia e do heroísmo de “O Hospedeiro”. Trata-se de um pequeno núcleo familiar, composto apenas por mãe e filho. O filho, Do-Joon, sofre de uma deficiência mental, fator no qual sua mãe, Hye-ja, procura justificar seu excesso de proteção e cuidados, compondo assim uma relação um tanto patológica de extrema proximidade. Hye-Ja enxerga na deficiência de seu filho um reduto de inocência e pureza, ignorando a potência libidinosa latente de um jovem homem que nunca pôde dar vazão aos seus impulsos sexuais.

Ao acontecer um crime hediondo – o assassinato de uma jovem estudante – na pequena cidade onde vivem, Do-Joon é o primeiro a ser acusado e em meio à sua confusão mental acaba por se declarar culpado. Tendo o crime atraído grande atenção para a pequena cidade, a necessidade de apresentar prontamente um responsável e sua devida punição exime a necessidade de uma maior investigação.

Alheio a tudo que acontece à sua volta, Do-Joon não chega a se importar com sua condição de presidiário; em meio a esse cenário de indiferença, resta a Hye-Ja – a única que realmente se importa com a verdade – tentar descobrir o que de fato aconteceu naquela noite. Nós, os espectadores, acompanhamos esta noite na perspectiva do próprio Do-Joon, que de fato interagiu com a garota assassinada, praticamente na cena do crime.

Assim seguimos, acompanhando a busca de Hye-Ja pela solução deste mistério. O desenrolar dessa investigação segue passos incertos, levando Hye-Ja a penetrar uma rede inesperada de relações que permeia a pequena cidade. O desenrolar desta nova narrativa mostra a grande maestria de Bong em praticar um cinema de gênero, absolutamente contagiante, no qual mergulhamos em tramas e tensões, mas, ainda assim, auto-consciente e irônico, como na esplêndida cena em que Hye-Ja tenta sair sorrateiramente da casa de Jin-Tae, enquanto este dorme, e acidentalmente derruba uma garrafa d'água próxima à cama. O barulho da garrafa não o acorda, mas o suspense se estende ao máximo, até beirar o ridículo, enquanto observamos a água se espalhar, aproximando-se lentamente do dedo de Jin-Tae, num preciso plano em macro do pequeno detalhe. Vale ressaltar a maravilhosa composição dos planos como um todo, sempre extremamente cuidadosa, sempre com um olhar que busca o estranho, o grotesco, as perspectivas por onde não costumamos olhar, como o plano que acompanha o advogado andando no restaurante, com seu prato visto de cima, ocupando a maior parte da tela, e as comidas expostas passando a baixo; ou ainda, Do-Joon tomando seu remédio enquanto urina na parede, com seu rosto e a mão de sua mãe em foco, e a água, abaixo, fora de foco, se espalhando pelo chão.

Toda essa lógica de um filme de gênero é ainda subvertida pelo simples fato de que o que vimos na cena em que Do-Joon encontra a garota que será assassinada não é tudo. A mente de Do-Joon é cáustica e sua memória trôpega: logo no início do filme ele não se lembra que seu amigo Jin-Tae chutara o espelho de um carro, e não ele, assim como logo esquece onde está e porquê. Dessa forma, por que confiaríamos no que vimos? O que por vezes esquecemos é que o cinema pode ser ardiloso e será sempre parcial. Trata-se de um construto, e nenhum construto pode ser pleno. Nada que passa pelas mãos de um indivíduo é exato. A verdade ou um ponto de vista está sempre contaminado por impressões, opiniões, lembranças... e ainda, por aquilo que não é lembrado, que é omitido. Coisas que inconscientemente omitimos para nós mesmos e outras que nem omitindo conscientemente conseguimos esquecer. Nossa mente, assim como a de Do-Joon, nos prega peças – esconder, ignorar, esquecer ou ainda, lembrar daquilo que não queríamos –, e igualmente pode o cinema.

É interessante constar, também, a presença da tecnologia nos filmes de Bong. Mesmo em lugares pouco desenvolvidos, a tecnologia – os celulares que tiram foto, os computadores, as impressoras, os equipamentos médicos etc – se mistura com o que há de mais rudimentar e de culturalmente tradicional. A presença de duas forças que convivem de forma paradoxal e geram um imaginário poético completamente novo – que podemos ver igualmente em diversos outros filmes orientais contemporâneos, como em Jia Zhang-Ke e Apichatpong Weerasethakul –, que marca uma das mais fortes características de nosso tempo. Hye-Ja não pode continuar fazendo acupuntura pois seu equipamento não está de acordo com as atuais regras de higiene e assepsia, mas a crença em suas agulhas, suas ervas e seus elixires compõem um mundo ainda encantado no qual pode encontrar o seu porto seguro, ainda que o “novo mundo” tente contrariar seu imaginário de crenças e tradições. O que nos leva ao plano final do filme, um dos mais belos planos do cinema dos últimos tempos. Inserida numa situação que só poderia ocorrer no mundo contemporâneo – uma excursão de senhoras num ônibus –, é sua medicina ontológica que a liberta de sua angústia, não importando se trata-se de um placebo, da ciência ou de uma cura milagrosa.

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