QUASE UM SEGREDO:


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Original: Mean Creek
País: EUA
Direção: Jacob Aaron Estes
Elenco: Rory Culkin, Ryan Kelley, Scott Mechlowicz, Trevor Morgan, Josh Peck, Carly Schroeder
Duração: 87
Estréia: 25/11/2005
Ano: 2004


A chancela Sundance


Autor: Cid Nader

Tomara que "Quase um Segredo" não faça jus ao seu título brasileiro e não passe quase desapercebido nas telas paulistanas - risco que corre se o fator "informação via imprensa" tiver razoável valor como chamariz, coisa na qual, aparentemente, o pessoal do Estação, que lançará o filme em uma de suas duas mal-cuidadas salas de São Paulo (Top Cine) não acredita, pelo descaso demonstrado ao anunciar uma sessão para os críticos na última hora, em dia de acirrada concorrência.

O filme dirigido por Jacob Aaron Estes é um daqueles típicos produtos que carregam a chancela "Sundance" - o famoso festival norte-americano, criado por Robert Redford, que prioriza os trabalhos e roteiros de novos cineastas. Acontece, que com o tempo, uma infinidade de filmes que passaram ou almejaram passar pelo festival tomaram rumos narrativos, interpretativos e estéticos semelhantes entre si, criando assim um "estilo Sundance".

A explicação para tal fenômeno tem explicação razoavelmente simples e lógica: como o evento prestigia na essência obras jovens, diretores novatos são os que acorrem na tentativa de uma vaguinha rumo ao sucesso. Se os diretores são jovens, a lógica indica que freqüentam as mesmas escolas de cinema, que adquiram modelos estéticos ligados ao seu tempo, se "copiem" no estilo de filmagem e montagem, usem cartilhas de interpretação saídas da "mesma gráfica" e, principalmente, tenham parcos recursos para a confecção de seus trabalhos.

Usemos, portanto, nosso estreante "Quase um Segredo" como exemplo prático. É uma história que envolve adolescentes – sempre problemáticos, uns mais outros menos - que vivem em algum desses rincões isolados dos Estados Unidos branco, com seus problemas existenciais evidenciados por todo um entorno selvagem ou distante. A violência física e mental se faz parceira dos mais "pacatos" a partir de um clamor por vingança, que tem como alvo um moleque "violento por natureza", que "nasceu assim" e, portanto, não pode carregar nada de bom dentro de seu deformado e gordo corpo: "sou um exemplo de variação genética", explica ele ao recusar uma bebida, "o futuro da raça".

Tem filmagem "seca", sem muito uso de recursos "embelezadores", apesar de alcançar um momento de beleza singela quando nos mostra remos tocando leve e graciosamente a água.

Revela uma molecada "doentia", fruto de um trecho de sociedade que é reacionário, isolados - mesmo que andem sempre juntos - em suas dúvidas e esporádicas explosões vingativas. Mas, em contrapartida ao modelo de garotos desesperançados que nos é apresentado, os personagens têm composição bastante formal. A boa e angelical menininha. O irmão mais novo, puro, mas com repentes que pedem justiça, mesmo que com mãos próprias. O irmão mais velho e sua "pinta" de esperto, mas que revela-se mesmo através de atos espontâneos que denunciam sua formação pela mesma boa carga genética do caçula. Um outro, que vive com o pai gay e seu companheiro, mais sensível, de boa índole e complexado por conta das brincadeiras a respeito da relação. O "garanhão", um pouco mais mandão, um pouco mais malandro, que vive com o violento irmão e que revela toda a sua insegurança quando assunto é o pai. Finalizando, o gordo, violento, malvado, mas que, na realidade, não passa de um carente de amizades, reagindo, portanto, violentamente, maldosamente. Portanto, traços bastante formais.

Quero dizer então que o filme, apesar da aura de "independente", é careta ou manipulador por estereótipos? Na realidade não. O seu mérito está justamente nessa demonstração de que o ser humano é isso mesmo, dúbio. Que existirá sempre a determinante natureza humana. Poderosa e soberana. De formação milenar e ancestral, com um acúmulo de informações não tão facilmente "deletáveis".

Apesar da chancela "Sundance" de qualidade, "Quase um Segredo" aponta, desde o início, para caminhos previsíveis, pré-determinados. E não tenta mudá-los. Seu grande problema, num filme que tem, também, razoável quantidade de acertos.
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