Tyson:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: James Toback
Elenco: Documentário.
Duração: 90 min.
Estréia: 29/01/2010
Ano: 2009


Documentário deixa Tyson falar.


Autor: Fernando Oriente

Tyson é um documentário que, apesar de suas limitações, tem o grande mérito de permitir que uma das figuras mais incompreendidas do esporte mundial fale e se exponha sem obstruções. O diretor James Toback acerta em registrar o grande fluxo verborrágico de Tyson sem julgamentos morais, sem interrupções inquisitivas e sem a utilização de elementos sentimentalistas. No longa quase não há a presença de músicas de fundo, depoimentos piegas de terceiros nem a presença forçada de pessoas queridas ao boxeador relembrando passagens marcantes. No filme de Toback é Tyson quem está em foco. O vemos falando sem parar e nem um pouco preocupado em escolher termos ou em fazer média. O campeão fala o que vem em sua cabeça, tenta seguir um discurso ensaiado, mas é carregado por suas emoções. Expões seu rancor xingando aqueles que considera os responsáveis por seus infortúnios e se emociona ao lembrar seus momentos de superação e as pessoas que o ajudaram a se tornar um dos maiores mitos do boxe.

A figura de Tyson já é magnética por si só. Aquele rosto marcado, com a tatuagem tribal que lhe confere um ar de agressividade ainda maior, se contrapõe com a voz frágil, quase fina com que despeja suas lembranças e tece seus comentários. As imagens de arquivo impressionam, embora já sejam conhecidas dos que acompanharam sua carreira. Exceção aos vídeos em que ele aparece treinando com seu primeiro manager, Cus D'Amato, e lutando seus primeiros combates como amador. É de assombrar vermos a velocidade com que o jovem pugilista Mike Tyson desferia seus golpes. A montagem dos nocautes obtidos em seus dias de glória potencializa de forma intensa a idéia de homem de aço e demolidor que se criou em torno dele. As conquistas de títulos, a unificação dos cinturões, quase tudo de sua glória está presente em imagens dentro do documentário de Toback.

Em relação às polêmicas e a vida de Tyson fora dos ringues o longa até que se sai bem em evitar o sensacionalismo e os clichês. Mas é nítida a incapacidade do diretor em fazer com que seu personagem se aprofunde em passagens marcantes de sua vida, como no que realmente aconteceu para que fosse condenado por estupro. Os temas e lembranças presentes em Tyson parecem ter o mesmo peso para Toback, que não consegue compor uma escala de prioridades dentro daquilo que documenta. Mas a própria revisão de vida feita por Mike Tyson acaba conduzindo o longa como um retrato de ascensão e queda, algo que é tão caro dentro da sociedade de valores contemporânea.

O que nos resta do documentário é a sensação de que um dos tipos mais agressivos e complicados da história do boxe (e do universo sensacionalista da exploração boçal de celebridades) é no fundo um homem limitado, que sempre teve o medo como seu companheiro e que fazia de tudo, inclusive se transformar em “animal violento”, para se proteger de sua fragilidade e de sua baixa auto-estima.

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